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Médico pede cuidado com o “doutor Google”

“O hábito faz o monge”. Todo médico sabe disso. Quando alguém nos pede para dar uma “olhadinha” num exame, certamente ele irá procurar outro ...

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“O hábito faz o monge”. Todo médico sabe disso. Quando alguém nos pede para dar uma “olhadinha” num exame, certamente ele irá procurar outro profissional para pedir uma nova opinião.
Lembro-me quando, durante o carnaval, um folião passou mal e corri para ajudá-lo. Como eu estava de bermuda e camiseta, minha conduta valeu tanto quanto a dos circunstantes, que insistiam nas atitudes mais bizarras, como dar mais cerveja à vítima, mergulhar seu corpo no mar, oferecer-lhe um tira-gosto, entre outras panaceias, visando melhorar o quadro hipoglicêmico que havia se instalado nele.
Tivesse eu atendido esse rapaz num posto médico, vestido de branco e cercado de formalidade, todos teriam depositado total confiança no meu procedimento.
Não se deve julgar ninguém pela aparência. Entretanto, a forma como interpretamos o valor simbólico de um jaleco, de uma batina ou de uma farda, por exemplo, pode afetar nossos processos cognitivos.
Agimos não apenas com o cérebro, mas com os olhos, e esses processos estão baseados em experiências físicas que provocam conceitos abstratos. Basta lembrar que o ato de lavar as mãos está relacionado à pureza moral e a julgamentos éticos.
Tudo que é racional é guiado também pelo emocional. Aquilo que controla nossas vias neurológicas está relacionado com as emoções, cuja construção passa pelos relacionamentos e a concepção de valores sociais. Por esse motivo, o “santo de casa não faz milagre”.
A confiança do paciente é um conjunto de crenças ou expectativas de que seu médico irá se comportar de alguma forma que ele mesmo espera, identificado como um sentimento tranquilizador em relação ao profissional e suas intenções.
O crédito depende de competência, compaixão, privacidade, confidencialidade, confiabilidade, segurança e comunicação, todos inseridos no ritual médico.
Quando os pacientes questionam sobre situações específicas que afetaram positiva ou negativamente a sua confiança no tratamento, na maioria das vezes os casos estão relacionados com o comportamento e a atitude do médico.
Uma terapia só será bem-sucedida quando o enfermo acreditar e confiar no seu médico.
O acesso cada vez maior do “leigo” à informação até outrora considerada exclusiva para os “iluminados”, tem levado alguns estudos a concluírem que existe uma forte pressão sobre esta relação, até mesmo minando-a.
O surgimento de ferramentas de pesquisa on-line possibilitou que as pessoas obtivessem informações médicas de forma cada vez mais simples e clara e isto aumentou o seu senso crítico. Todavia, a evidência mostra que a maioria dos pacientes ainda confia que seu médico atua no seu melhor interesse, desde que ele pratique sua arte de maneira cristalina.
Pessoas que sentem algo de errado com o corpo procuram o sintoma na internet e fazem um autodiagnóstico por meio dos resultados encontrados. Essa situação é cada vez mais comum. Todavia, as consultas feitas com o “Dr. Google” podem parecer inocentes, mas costumam causar riscos à saúde, como por exemplo, ignorar uma doença grave ou gerar pânico sem razão.
Hoje, o excesso de informação atrapalha e produz ainda mais dúvidas nos pacientes.
Quase todo médico, durante uma consulta, após selar um diagnóstico, já vivenciou experimentar a desconfiança do doente.
Muitas vezes, os pacientes acreditam já ter se autodiagnosticado em casa por meio de informações que encontram na internet e vão a um consultório médico apenas em busca de uma confirmação do que já acreditam ser a verdade.
Nestes casos, quando o médico os contradiz, a desconfiança e a dúvida podem vir à tona.
Quando a confiança não socorre a dúvida, a circunstância fica fora de foco.

(*) João Evangelista Teixeira Lima é gastroenterologista e clínico geral.

A coluna Doutor João Responde é publicada todas as terças-feiras em A Tribuna.

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