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Nossos furacões

por: Luiz Trevisan Não temos vulcões nem furacões como Irma, e os terremotos são esparsos. Em contrapartida, olha a qualidade das nossas lideranças. ...

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por: Luiz Trevisan

 

Não temos vulcões nem furacões como Irma, e os terremotos são esparsos. Em contrapartida, olha a qualidade das nossas lideranças. Uma delas acaba de ser flagrada com malas cheias de dinheiro desviado dos cofres públicos. Já o povo, assim como naquela sequência da piadinha feita no rastro das catástrofes climáticas, segue entre altos e baixos. É capaz tanto de grandes generosidades e tolerância quanto agir de modo inteiramente avesso.
As delações premiadas, algumas mal-ajambradas, fazem tanto abalo quanto furacões e terremotos. O problema é que precisamos reconstruir tudo sempre, e a nossa reconstrução embute outro agravante, que é o custo Brasil, aquele percentual a mais decorrente do famoso “jeitinho”, do compadrio, das igrejinhas e corporações nada edificantes. E convenhamos que não é fácil reconstruir nada em lugar algum, nem para os japoneses tão céleres e organizados.
Um grupo de 25 educadores capixabas encontra-se em viagem de duas semanas por Cingapura, sudeste asiático, que é o segundo mais bem avaliado pelo Programa Internacional de Avaliação de Alunos (Pisa), com alto desempenho em leitura e matemática. O Brasil, só para mensurar, está na 65ª posição. Os capixabas foram lá vivenciar um pouco a experiência e conhecer a tal expertise, para possíveis adequações. Salvo engano, essas adequações vão acabar ficando mesmo pelo cais daquela cidade portuária, tamanha é a diferença histórica, de valores, padrões e comportamentos.
Quando lá foi proclamada a independência, em 1965, a renda interna era igual Angola, e Cingapura não passava de uma favela a céu aberto, sem recursos naturais, muita prostituição, droga e analfabetismo. Eis que um confucionista Lee Kuan Yew, também influenciado por Lênin e economistas ingleses, assumiu o poder e passou a ditar regras. Com mão de ferro, “varreu” a cidade do que considerava “escória humana”, fuzilou, expulsou todos que não se enquadravam ao regime proposto. Aplicou a receita amarga toda de uma vez, tal como receitou Maquiavel, e foi reorganizando o que antes parecia enorme bordel à beira-mar.
A boa saúde financeira e social ostentada hoje pelos 5,5 milhões de habitantes de Cingapura, terceira maior renda per capita do mundo, tem um preço, como tudo nesta vida. Os serviços públicos são majoritariamente estatais, universais e pagos conforme a renda de cada cidadão. Partidos, imprensa, educação, saúde, transportes, quase tudo é controlado pelo Estado, já a economia é de mercado. O sistema educacional público atende a mais de 70% dos alunos do primário e secundário, é praticamente gratuito: quem tem renda paga taxa maior, os carentes são isentos, e isso se aplica no ensino superior controlado por seis universidades públicas.
Os impostos são baixos e progressivos, quase o inverso do nosso sistema. E ali, também ao contrário daqui, não há espaço para a ideia de que se deve taxar menos os ricos do que pobres, por serem geradores de riqueza. Já a liberdade individual… aí o bicho pega. Chiclete é proibido, assim como “incomodar” com instrumentos musicais em locais públicos. Nada de beber em público – bares têm horários de funcionamento limitados – ou manter relações com alguém do mesmo sexo. Quem for apanhado com droga é executado sumariamente.
No resumo, o modelo aplicado pelo timoneiro Lee, sucedido no poder até hoje por correligionários, não difere muito do chinês. E vai ao encontro de correntes extremistas que atualmente flertam a seu modo com aqueles filósofos gregos que diziam: sistema onde muita gente manda, não funciona. Em tempo, Vitória virou sede de um “fórum de direita”. Ou seja, a direita sempre ativa, porém envergonhada, também está perdendo o pudor. E, a exemplo de furacões, aumentando a fúria.

Luiz Trevisan é jornalista

 

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