
por: Luiz Trevisan
“A melhor saída diante de tanta sanha de exclusão, do vamos nos juntar aqui e deixar que os outros se explodam”
O mundo anda num ritmo que por vezes se parece com uma música de Edu Lobo e Chico Buarque que fala das escadas que fogem dos pés e dos relógios que rodam para trás. A cada dia temos a sensação de que o mundo anda em retrocesso, em passos de caranguejo. Basta ver o extremismo sobre questões de gênero ou exaltações em defesa da volta da ditadura, da divisão em vez da aliança e inclusão. Um mundo concêntrico, antiglobalizante e separatista está no ar. Até onde isso vai dar… Já deu em Trump nos EUA, Putin na Rússia e vai por aí rodando.
A turma da Catalunha, em briga secular, incendeia a Espanha. O Reino Unido segue dividido entre ficar ou sair do mercado comum europeu. Os “separatistas” do Sul brasileiro já se assanharam num plebiscito, enquanto o bloco Sudeste dá asas ao que parecia sepultado pela marcha evolutiva: emancipar a região do País. Já imaginaram São Paulo e Minas, mais Rio e Espírito Santo juntos, num só bloco e sem as pendências econômicas e sociais do Norte e Nordeste brasileiro? Pois é, trata-se de retórica antiga, que parecia ultrapassada, mas que retorna com força.
A melhor saída diante de tanta sanha de exclusão, do vamos nos juntar aqui e deixar que os outros se explodam, talvez tenha surgido em uma daquelas conversas no Café Murad´s, em Cachoeiro, a chamada boca maldita da cidade. Por pura ironia, cogitou-se ali um plebiscito para transformar a “capital secreta” numa república independente. O grupo divertiu-se imaginando que Paulo Hartung perderia o sono e a fleuma, que Theodorico Ferraço teria um território para chamar de seu, mas, falando sério, era só outra irreverência para inflar o bairrismo local. Afinal, é a terra do ”Rei”, do sabiá da crônica, etc.
O País está tão dividido que até o STF, em seu julgamento sobre as tais medidas cautelares/Aécio Neves, rachou ao meio e construiu uma saída meio barro, meio tijolo que redundou na acintosa impunidade do senador. Em nosso cotidiano a divisão se revela em episódios como o registrado no mercado Saara, Rio de Janeiro: aboletada num carro de som e com o filho no colo, mulher irradia pedindo que o marido volte para ela. Parte do público se comove, aplaude e incentiva a reconciliação do casal, o amor é lindo e tal. Porém, outra metade, cruel e separatista – ou seria “realista”? –, berra em coro: “Corno, corno”.
Mais cedo ou tarde, devem retornam os separatistas municipais, espécie que igual aos zumbis povoam o calendário das temporadas eleitorais. Pregam a autonomia de território como caminho para o desenvolvimento quando, na maioria das vezes, isso favorece à montagem de superestruturas (Prefeituras, Câmaras, Conselhos, etc.) geradoras de despesas, mas que trazem poder aos políticos paroquiais e extenso cabide de empregos.
A grande vantagem que o mundo unido e globalizado traria seria justamente eliminar as estruturas dispendiosas, na medida em que são superpostas. Num primeiro momento, maravilha. Contudo, surgiram as caravanas de refugiados, os imigrantes indesejados, os terroristas fundamentalistas e os líderes populistas. A intolerância cresceu e o mundo agora se parece com aquele relógio da canção que roda invertido, embora siga em movimento.
Luiz Trevisan é jornalista, escritor e compositor