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Trinta jovens na fila para trocar de sexo no Estado

O médico Jhonson Gouvêa desenvolveu a técnica cirúrgica que é realizada há mais de 20anos, e 80 transexuais já mudaram de sexo. Foto: Rodrigo Gavini ...

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O médico Jhonson Gouvêa desenvolveu a técnica cirúrgica que é realizada há mais de 20 anos, e 80 transexuais já mudaram de sexo. Foto: Rodrigo Gavini O médico Jhonson Gouvêa desenvolveu a técnica cirúrgica que é realizada há mais de 20
anos, e 80 transexuais já mudaram de sexo. Foto: Rodrigo Gavini

No Estado, há mais de 30 pessoas na fila para fazer cirurgia de mudança de sexo. A informação é do urologista e coordenador do Programa de Transgenitalização do Hospital das Clínicas de Vitória, Jhonson Gouvêa.

Neste ano, três cirurgias foram realizadas, todas transmulher, ou seja, que nasceram com o órgão sexual masculino e fizeram cirurgia para transformá-lo no feminino. Este ano, mais três pacientes serão operados. Em 2016, foram seis.

O procedimento, desenvolvido por Gouvêa e sua equipe, é realizada há 20 anos. Desde então, cerca de 80 transexuais já mudaram de sexo, sendo a maioria transmulher, cerca de 70%. Já a mudança do feminino para o masculino ainda não foi feita por meio de cirurgia, mas pela aplicação de hormônios.

“Faço a cirurgia voluntariamente e há ainda mais de 30 pessoas na fila. Mas nem todos operam. É preciso ter o perfil tradicional de transexual, sentir que nasceu no corpo errado. Alguns só querem retirar os testículos e receber hormônios. Há alguns pacientes que chegaram a amputar o próprio pênis devido à sua aversão ao órgão.”

Gouvêa disse que os trans-homens retiram mama, ovário e útero. “Ainda não há uma cirurgia oficial para construir um pênis.”

A responsável pelo ambulatório de Diversidade de Gênero do Hospital das Clínicas de Vitória, Léia Brotto, explicou que, para participar do ambulatório, é preciso ter pelo menos 18 anos.

“Há pelo menos 100 pessoas cadastradas no ambulatório que era dirigido pelo doutor Jhonson Gouvêa, que se aposentou. Estamos há mais de dois anos aguardando liberação do Ministério da Saúde para que possamos ofertar todo apoio necessário para os transexuais. Hoje fazemos acompanhamento com assistente social, psicólogo e endocrinologista.”

Para se candidatar à cirurgia de retirada de mama, ovários e útero ou para a transformação do órgão sexual masculino em feminino, é preciso fazer acompanhamento há pelo menos dois anos no hospital.

“Estamos aguardando a liberação do Ministério da Saúde para fazermos as cirurgias. Hoje, o endocrinologista acompanha e prescreve os hormônios masculinos ou femininos. Quando tivermos o ambulatório habilitado, poderemos fornecer o hormônio e retirar mama, ovário e útero.”

Murilo Lopes Teixeira e Carlos Eduardo Medeiros de Melo.
Foto: Rodrigo Gavini

Transformação

Eles nasceram mulher, mas sempre sentiram que eram diferentes.

Com o passar do tempo, os universitários Murilo Lopes, 23, e Carlos Eduardo Medeiros, 26, perceberam que eram transexuais.

Eles tiveram apoio da família, fizeram a retirada da mama e usam hormônios, acompanhados por médicos. “Cansei de tentar ser algo que não sou e, no ano passado, expliquei à minha mãe”, disse Carlos.

Murilo contou que nunca se vestiu como mulher. “Sempre usei boné, bermuda, blusa larga.” Os dois aguardam a mudança de seus nomes na Justiça.

Saiba mais:

São feitas cirurgias de mudança de sexo de transmulher, ou seja, paciente que nasceu homem mas se sente e se percebe mulher. São feitas cerca de seis cirurgias por ano no Hospital das Clínicas de Vitória, que só é possível por meio de contrato com a secretaria de Estado da Saúde.

Como o ambulatório de Diversidade de Gênero do hospital ainda não é habilitado pelo Ministério da Saúde, não é possível fazer cirurgias de retirada de mama, útero e ovário em pacientes transhomens, ou seja, que nasceram mulher mas se sentem ou se percebem homem.

Porém, para ambos os transgêneros, é feito acompanhamento com assistente social, psicólogo e endocrinologista, para a prescrição de hormônios.

Como participar

Para poder ser acompanhado é preciso ir até a Casa 3 no Hospital das Clínicas e solicitar uma consulta no ambulatório de Diversidade de Gênero. São acolhidos 10 pacientes por mês. É preciso ter no mínimo 18 anos para participar.

A cirurgia

Hoje é feita, no hospital, a cirurgia de mudança de sexo – a transformação do órgão sexual masculino em feminino.

Para se candidatar, é preciso fazer acompanhamento há no mínimo dois anos no ambulatório e ter pelo menos 21 anos.

Defensoria Pública ajuda transexuais a mudar nome

Mesmo que o transexual não tenha passado por cirurgia de mudança de sexo, ele tem direito de alterar seu nome e gênero em seus registros. Para auxiliar no processo, a Defensoria Pública do Estado
orienta e entra com ação na Justiça, chamada de retificação de nome e gênero.

O defensor público do núcleo de Direitos Humanos e Cidadania da Defensoria Pública, Douglas Admiral Louzada, explicou que o núcleo existe há dois anos e que das 16 ações já ajuizadas, dois conseguiram a mudança.

“O núcleo está localizado na Cidade Alta, centro de Vitória, e presta um atendimento especializado. Mas o cidadão pode buscar a Defensoria Pública de seu município. Em casos de grupos socialmente vulneráveis, fazemos uma análise mais ampla, não há tanto rigor na questão salarial do transexual.”

Para ser atendido em Vitória, é preciso ligar para o telefone 3222-2825, das 8 às 17 horas, e agendar
atendimento. É importante levar comprovantes de residência e de renda, certidão de nascimento e
documento de identidade.

“Houve uma decisão de maio do Supremo Tribunal de Justiça que confirmou essa orientação. Entende-se que não é exigido o procedimento cirúrgico para se alterar o gênero e o nome da pessoa. Isso porque a cirurgia não é acessível para tudo mundo, devido a limitações de ordem financeira e pela incapacidade dos órgãos públicos de atender a todos os interessados.”

Louzada afirmou que há ainda muita demora em conseguir a mudança do nome. “Acompanhamos casos de pessoas que aguardam há mais de um ano e meio. Como não há uma lei que diga como deve ser o procedimento, cada juiz age de uma forma. Uns fazem audiências, outros pedem avaliação psicológica. Houve um caso em Vila Velha que levou sete meses, o mais rápido.”

Louzada ressaltou que, quanto mais demora, mais chance de preconceito contra os transexuais. “Há quem não vá ao médico ou a cursos com medo de ser chamado pelo nome de sua certidão.”

A defensoria finaliza a documentação de mais 12 pessoas para entrar com a ação.

 

Reportagem de Kelly Kalle para o jornal A Tribuna desta terça-feira (15).

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