por: Luiz Trevisan
“E quanto vale uma vida na vala das drogas de bairros como Terra Vermelha, Vila Velha, ou Central Carapina, na Serra?”
Não deve ser fácil viver num país onde o Presidente gosta de duelar com rivais políticos na beira de um vulcão atômico. E aonde você vai a um festival de música e se torna alvo de um maluco atirador armado até os dentes. Depois deste recente massacre em Las Vegas, tudo o que acontece em Vegas precisa sim sair de lá e ser revelado ao mundo, para mostrar a dimensão da insanidade cruel. Sim, porque há os loucos mansos. E os norte-americanos precisam refletir mais sobre essa mortal obsessão por armas. Afinal, quem cria serpentes deve saber bem o risco que corre.
A produção do novo filme “Blade Runner 2049” rebobina a terra devastada e sombria de um futuro que se projeta cada vez mais ameaçador, distópico. Esqueça a AK-47, a “arma mais perigosa”, sonho de consumo de terroristas e traficantes. Em breve vai virar peça de museu. Basta mirar os recentes ataques realizados com armas sônicas, que já saíram da ficção para esquentar o cotidiano das guerras frias – vide EUA, Cuba e russos de contrabando. Na vida real, somos replicantes da barbárie em evolução.
Abaixo do Equador também não há motivos para comemorar ao se projetar comparações sobre o valor da vida no mercado humano. Em Vitória, a passeata em memória da médica Milena Gottardi, assassinada, atraiu multidão à Praia de Camburi. Justa homenagem contra a ameaçadora impunidade, juntamente com outra evidência aterrorizante: assassinos formaram um sinistro condomínio para executar a médica por R$ 2 mil. Em Cariacica, um frentista de posto de gasolina foi morto a tiros por cliente após discussão de uma cobrança de R$ 18,00.
E quanto vale uma vida na vala das drogas de bairros como Terra Vermelha, Vila Velha, ou Central Carapina, na Serra? Nesses e outros bairros, mata-se a varejo mais do que o atirador de Las Vegas fez no atacado. Entre janeiro e setembro deste ano, em 20 bairros da Grande Vitória foram registrados 578 assassinatos. Muitas vezes, por causa de uma bucha de maconha, pedra de crack não quitada ou alguma vingança pessoal.
Assim que o crack começou a invadir favelas e periferias, rezava a lenda que traficantes repudiavam o ingresso da droga, pelo fato de que atentava contra a vida do consumidor: em pouco tempo usuário tinha sua a saúde devastada, morria cedo. Como agora as pedras estão rolando soltas, das duas, uma. Ou traficantes concluíram que a vida do usuário não tem tanta importância assim ou que a droga não é tão letal quanto se supunha. Ou as duas coisas juntas.
E quanto vale a vida para o ditador norte-coreano Kim Jong-um, flagrado sempre entre bombas, mísseis e cercado de militares que riem o tempo inteiro? Tudo aquilo é feito somente para implicar com o boquirroto do Donald Trump? Claro que não, é briga que fomenta a indústria de armamento, além de ostentação de força. O resto é figuração. Enquanto eles se ofendem à beira do vulcão, fanáticos religiosos botam terror nas ruas, em nome de Deus. A diversidade e tolerância são colocadas em xeque aqui, ali, acolá.
Até o lixo vai ganhando mais valor do que pessoas. Basta olhar o festival de milionários contratos superfaturados realizados por prefeituras para serviços de limpeza urbana. Quem se opõe, perde emprego e pode também perder a vida. Já vai longe o tempo em que o bairro São Pedro, em Vitória, um lixão a céu aberto, era conhecido como “Lugar de Toda Pobreza”, objeto de elogiado documentário de Amylton de Almeida e José Henrique Gobbi, na década de 1980.
Agora, o lixo de muitos gera luxo para poucos, síntese e gênese desses dias que correm estranhos. Tão bela e rara, a vida também pode ser extremamente feia e banal.
Luiz Trevisan é jornalistas, escritor e compositor
