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MUDANÇA

“Fim da era das carroças”: primeiros condutores recebem bikes e indenização

Proibição da tração animal muda a vida de famílias que há gerações dependem dos cavalos para trabalhar

Os cavalos serão encaminhados ao Centro de Vigilância Ambiental (CVA)
Foto de perfil de Aline Moura

Aline Moura

Aline Moura é formada pela UFPE, trabalhou como repórter de Política, Editora Assistente de Produção de Política e repórter especial do Diario de Pernambuco, num período de 15 anos, onde atuou em todas as áreas, exceto esportes. Também teve experiência de quatro anos como gerente de comunicação da Secretaria do Trabalho, Emprego e Qualificação de Pernambuco e voltou ao jornalismo para integrar a equipe do Portal da Tribuna Online como repórter.

Última atualização

O barulho das ferraduras vai, aos poucos, silenciando nas ruas do Recife. O que, por décadas, foi símbolo de sustento, identidade e liberdade para muitos trabalhadores, está chegando ao fim. A Prefeitura do Recife iniciou, nesta sexta-feira (7), o pagamento de indenizações e a entrega de benefícios aos primeiros carroceiros que aceitaram deixar a tração animal.

A cerimônia aconteceu no Compaz Lêda Alves, no bairro do Pina, e marcou o início do Programa Gradual de Retirada dos Veículos de Tração Animal, que prevê o fim definitivo da atividade até 31 de janeiro de 2026.

Cavalos trocados por bikes elétricas e empregos

Seis condutores aderiram voluntariamente à primeira etapa do programa. Cada um entregou seus cavalos e carroças em troca de indenizações de R$ 1,2 mil por animal e o mesmo valor por carroça, além de bikes elétricas e vagas de trabalho na limpeza urbana.

Dos seis, apenas um recusou o novo emprego, preferindo apenas o dinheiro. Ao todo, foram entregues cinco carroças e seis cavalos, que agora serão encaminhados ao Centro de Vigilância Ambiental (CVA). 

O gesto foi simbólico. Nas fotos oficiais, entretanto, somente um dos beneficiados sorri, discretamente. A medida não deixa de ser polêmica, embora venha sendo anunciada há anos. No mês de junho passado, os carroceiros fecharam o trânsito de vários bairros em protesto contra o fim da tração animal. Foram vencidos, mesmo após externarem suas dores em audiência pública na Câmara do Recife.

Uma tradição que chega ao fim

Para muitos carroceiros, o programa representa uma mudança de vida radical. Trabalhar com tração animal é, em várias famílias, um ofício passado de pai para filho. A decisão da prefeitura vem após anos de mobilização de entidades e protetores de animais, que denunciaram maus-tratos dos cavalos como má alimentação, peso em excesso e chicotadas. Os carroceiros propuseram emplacamento das carroças como forma de punir que andava errado, mas a proposta não avançou.

“Hoje fizemos história: foi o dia da primeira entrega voluntária de cavalos e carroças. Um marco da luta pelo proibição das carroças no Recife. A partir de hoje, o Recife entra para a história da causa animal”, disse Andreza Romero, chefe do Gabinete de Proteção e Defesa dos Animais da Prefeitura do Recife.

Enquanto parte da sociedade comemora a ação como avanço na proteção animal e modernização da cidade, outro grupo vê nela uma “guerra perdida”. “O cavalo não é só ferramenta de trabalho. É companhia, alegria”, lamenta um condutor entrevistado em reserva pelo Tribuna Online PE na Várzea.

Censo e prazo apertado

Um novo censo será aberto ainda neste mês. É a última chance para quem ainda insiste em seguir o mesmo caminho de sempre — o do cavalo puxando a carroça nas ruas do Recife. Depois disso, em janeiro de 2026, o barulho das patas dará lugar ao som dos motores e das bikes. O ciclo se encerra oficialmente, embora a memória continue viva nas mãos calejadas de quem aprendeu a ganhar a vida guiando um animal, e não uma máquina.

A proibição da tração animal no Recife foi estabelecida pela Lei Municipal nº 17.918, de 2013, e regulamentada em 2019 pelo Decreto nº 32.121, que criou o Programa Gradual de Retirada dos Veículos de Tração Animal.

Desde então, os carroceiros tiveram mais de uma década para se adaptar à nova realidade — um tempo que, na prática, não tem tornado a despedida menos dolorosa. Para muitos, o cavalo sempre foi mais que instrumento de trabalho: era companhia, herança de família e liberdade sobre quatro patas. Neno Carroceiro, que representa os profissionais das carroças, não foi localizado pela reportagem até o fechamento desta matéria.

Veja o que disse Andreza Romero

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