
Uma das vítimas é um policial militar, de 45 anos, que pediu para não ser identificado. Ele afirmou que já tinha conhecimento da tática dos criminosos, mas que não imaginava que seria uma vítima.
Entre os bandidos que praticam os crimes estão moradores de rua e usuários de drogas que ficam nas regiões citadas. O policial, que recentemente foi vítima, seguia para o trabalho quando caiu. Outros cinco motociclistas tinham sido alvos horas antes.
O militar pilotava sua Yamaha 250 vermelha. “Por volta de 6 horas, parei em frente ao Terminal de São Torquato, em sentido à BR-262. Quando passava embaixo da Segunda Ponte, virei com a moto e derrapei por uns 10 metros”, contou.
Ele se levantou rápido e notou que sua farda estava suja de óleo. “Percebi que tinham jogado óleo de propósito porque não era um rastro, e sim, uma poça. Olhei embaixo da ponte e vi três noias (usuários de crack) me encarando”.
Ainda de acordo com o PM, a intenção dos criminosos era de assaltá-lo. “Jogam óleo para que o motociclista caia e eles possam assaltar. Mas peguei minha moto e saí do local”, revelou o policial.
Ele foi até o Pronto Atendimento (PA) de Alto Laje, em Cariacica, para ser medicado. “O segurança do posto me disse que naquela mesma madrugada, outras cinco pessoas caíram na mesma região que eu, e deram entrada para atendimento”.
O militar teve de ser afastado do trabalho por conta de dores no ombro esquerdo. Já um sargento que atua na região, que também falou sob condição de anonimato, confirmou que a prática está acontecendo, assim como algumas pessoas que trabalham nesses locais.
“Eles fazem isso para roubar celulares, dinheiro e outros pertences. Depois correm para as bocas de fumo de Cobi de Baixo, Cobi de Cima e São Torquato para venderem os produtos roubados ou trocarem por drogas”, explicou o sargento.
Afastado do trabalho após derrapar em uma poça de óleo embaixo da Segunda Ponte, entre Vila Velha e Cariacica, um policial militar, de 45 anos, conversou com a reportagem. Ele destacou que só não foi assaltado porque estava fardado e armado no momento da ação.
A Tribuna – O que percebeu assim que caiu?
Policial militar – Eu não estava em alta velocidade, até mesmo porque, é uma curva. Assim que levantei, vi uns três noias embaixo da ponte. Eles ficam lá para usarem drogas e cometerem assaltos. Quando eu olhei, eles abaixaram a cabeça e se afastaram.
Só escapei porque estava fardado. Se eu não fosse um policial, eles iam se aproximar para oferecer ajuda e assaltar. Essa é a tática deles.
Chegou a sacar a arma?
Coloquei a mão na arma. Mas se eles tivessem chegado perto, eu teria sacado a arma. Iria defender a minha vida. Mas eu levantei e fui de moto ao posto de saúde. Lá, o segurança alertou que outros cinco motociclistas caíram no mesmo local, durante a madrugada, e se machucaram.
O que o senhor sentiu quando caiu no asfalto?
Senti que eles fizeram aquilo para me assaltar. Os noias ficaram a cerca de 20 metros de mim. Fiquei com medo de um carro me atropelar, porque eu rolei no asfalto.
Como está a saúde do senhor no momento?
Estou afastado do trabalho, sentindo muitas dores. Um especialista falou que, provavelmente, rompi um ligamento e devo ter que operar. Vou perder escala extra e, se eu precisar de cirurgia, mais uns três meses para me recuperar.
O senhor vai continuar andando de moto?
Não. Eu fiquei com trauma, estou com medo de andar de moto, sem confiança nenhuma. Já passei a moto para frente. Agora é lutar para reconstruir a minha vida. Vou ter de mudar a minha rotina.
O que o senhor espera que aconteça?
Precisa ter uma fiscalização no local em relação aos noias que ficam embaixo da ponte. Mas isso precisa partir da prefeitura.
O que fica na sua memória depois de tudo o que passou?
Me senti sozinho. Não desfazendo da proteção de Deus, porque Deus guarda a gente. Mas, na hora do acidente, olhei para os lados e só vi os noias. Passaram pessoas de carro e ninguém parou para me ajudar – e olha que estava fardado. Me senti desprezado. Estava num campo de batalha sozinho.
Já ouviu outros casos como esse antes do seu?
Sim. O cara, quando está fissurado na droga, faz qualquer coisa para conseguir comprar.
Prática acontece há um ano, diz sargento
Casos como o que ocorreu com o policial militar de 45 anos não são isolados. Segundo um sargento, que pediu para não ter o nome revelado, a prática de criminosos de jogar óleo no asfalto para derrubar motociclistas e assaltar já acontece há cerca de um ano.
Ele afirmou que, somente nos dias em que estava de plantão, atendeu cerca de seis casos nos últimos meses. Em um deles, o sargento afirmou que o motociclista precisou ser internado em um hospital e ficou em estado gravíssimo.
“O que esses usuários de drogas querem é roubar. Então, eles vão se utilizando desse tipo de armadilha. Embaixo da Segunda Ponte, os casos são muitos. Eles jogam óleo na pista de propósito e fazem com que as vítimas caiam”, explicou.
Após a queda, os motociclistas são abordados pelos bandidos. “Roubam os pertences e vendem. Querem comprar drogas. Isso também ocorre na Rodovia do Contorno”, revelou.
O sargento explicou que é importante que as vítimas registrem a ocorrência para que uma investigação ocorra. “A maioria não registra. Tem motociclista que cai, vai procurar atendimento e acaba deixando para lá. Nem a PM aciona, e isso dificulta muito o nosso trabalho”.
Ainda de acordo com sargento, é preciso que os motoristas e motociclistas trafeguem com segurança nas rodovias.
“Principalmente naquele trecho, onde já se sabe que muitos casos estão acontecendo. Sei que é difícil quando se está numa rodovia, mas é um caso complicado. É preciso preservar a vida”, disse.
“Fiquei assustado”
Eram 7h30 da última quinta-feira, quando um auxiliar de logística, de 21 anos, caiu com sua moto ao passar na região de São Torquato, em Vila Velha.
O jovem machucou o joelho e os braços, e sua moto ficou danificada. “A minha sorte foi que um colega meu passou na hora e ficou me escoltando, e outras pessoas chegaram. Eu vi usuários de drogas rodeando, mas não levaram nada. Fiquei assustado”.
Pedras, galhos e pregos usados como armadilhas
As armadilhas usadas por bandidos para atacar seus alvos não se resumem em jogar óleo nas pistas. Pedras, galhos e até madeira com pregos estão entre as estratégias dos criminosos.
Um cabo da Polícia Militar contou que já colocaram pedaço de madeira com prego e árvore na pista para forçar o motorista a parar.
Isso, segundo ele, tem ocorrido, principalmente, na BR-262 e Rodovia do Contorno. Os criminosos, três ou quatro, de acordo com ele, se escondem em matagais e, quando a pessoa para, roubam celular, pertences e até o carro.
“Mesmo se a pessoa vir, não dá para voltar, por estar numa rodovia. Eles usam vários tipos de artimanhas, são cada vez mais ousados. Vão armados e na cara limpa”.
Um motoboy, de 36 anos e que faz entrega de peças automotivas, contou que já recebeu um alerta pelo WhatsApp, em áudio, sobre pedras que estão sendo jogadas em veículos na Rodovia do Contorno, especialmente em Cariacica, nos acessos aos bairros Nova Rosa da Penha e Porto Belo.
“Embora isso aconteça mais com veículos de passeio, eu redobro a atenção quando passo de moto por lá”, relatou.
O presidente do Sindicato dos Motociclistas Profissionais do Estado (Sindimotos-ES), Alexandro Martins, recebeu uma denúncia de que criminosos voltaram a usar uma “velha estratégia”, que é bater atrás de um veículo, para forçar uma parada, momento em que atacam suas vítimas.
Um dos casos recentes, segundo ele, ocorreu em cima da Segunda Ponte, quando uma mulher, que seguia no sentido Vitória a Cariacica, teve o seu carro atingindo.
“Sem ter como parar, ela seguiu até as proximidades do Terminal de Jardim América (Cariacica), quando foi surpreendida por bandidos que levaram seu celular e notebook”, contou. Alexandro pede que as pessoas não se calem e façam denúncias para que esses crimes possam ser investigados.
Outra simulação é do falso veículo quebrado, como conta o subinspetor da Guarda Municipal de Vila Velha, Patrick Oliveira.
Na Rodovia Leste-Oeste, região de Vale Encantado, Vila Velha, perto do areal, teve casos em que criminosos colocavam mulheres bonitas para pedir ajuda, segundo ele. “Quando as pessoas paravam, os assaltantes levavam até os veículos”.
Prefeituras garantem abordagens
Sobre a presença de usuários de drogas e moradores de rua, a Prefeitura Municipal de Cariacica informou, através de nota, que realiza diariamente abordagens. Atualmente, o município possui 163 pessoas em situação de rua.
As abordagens são feitas pela equipe do Serviço Especializado de Abordagem Social do Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas), até as 22 horas. No ano passado foram 757.
“Os assistentes sociais realizam tentativas de reintegração familiar das pessoas em situação de rua. A elas é oferecida a rede de serviços de assistência social, por meio dos Creas, porém nada é impositivo. No Creas, elas são encaminhadas a serviços de saúde, orientações sobre benefícios sociais, kit de higiene bucal, distribuição de preservativo ou encaminhamento ao abrigo”, informou a nota.
Ainda sobre o assunto, a prefeitura informou que o município dispõe de um abrigo de acolhimento institucional que funciona 24 horas por dia. O local, que fica em Campo Grande, tem capacidade para acolher 40 pessoas.
No abrigo, os moradores de rua contam com estrutura para a higiene pessoal, pernoites, atendimento psicossocial, encaminhamentos para saúde, empregos, retirada de documentos e alimentação (com quatro refeições por dia).
Os usuários de drogas podem procurar o Programa Municipal de Álcool e Outras Drogas (Promad) para acompanhamento.
Vila Velha
Já a Prefeitura de Vila Velha destacou que, atualmente, 150 pessoas vivem nas ruas no município.
A Secretaria de Assistência Social, por meio do Serviço Especializado em Abordagem Social (Seas), mantém contato permanente com as pessoas em situação de rua.
Foi destacado ainda que a maioria delas rejeita o encaminhamento para as unidades públicas municipais para receber abrigo.
“A prefeitura disponibiliza o serviço Consultório na Rua, que leva saúde a quem vive nas ruas e pode fazer encaminhamentos para tratamentos de pessoas com problemas relacionados ao abuso de álcool, drogas e outros tipos de doenças”, destacou a nota enviada pela prefeitura.
Polícia monitora regiões
A Polícia Militar informou que o policiamento ostensivo e preventivo é realizado em todas as comunidades nos entornos da BR-262 e Rodovia do Contorno (BR-101).
No entanto, ressaltou que o patrulhamento preventivo e a fiscalização em rodovias federais são de responsabilidade da Polícia Rodoviária Federal (PRF).
“Ainda assim, as viaturas da polícia realizam rondas constantes nas áreas, e a PM está sempre à disposição da população, quando acionada via Ciodes (190)”, diz um dos trechos da nota.
Já alguns policiais que atuam nessas regiões confirmam à reportagem que os locais citados são realmente perigosos.
A PRF informou, também por meio de nota, que é responsável pela fiscalização e por policiamento nas rodovias federais, incluindo o trecho da BR-101, conhecida como Rodovia do Contorno, em Cariacica, e na BR-262.
A Polícia Rodoviária garantiu que rondas ostensivas e preventivas são realizadas diuturnamente. “Em casos de ocorrências, quaisquer que sejam, orientamos aos cidadãos ligarem para o número de emergência, o 191”, orientou.
Sobre essas modalidades de assaltos, o núcleo de Comunicação da PRF disse que não tem conhecimento de tais ocorrências, mas que seria necessário um levantamento mais aprofundado. “Nesse sentido, é importante as comunicações para o 191”, diz a nota.
“Fiquei assustado”