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Padres e pastores arriscam a vida em bairros dominados pelo tráfico

“Quero falar com o chefe da boca. Preciso evangelizar neste local!” Cercado por jovens que escolheram matar ou morrer no mundo do crime, um pastor ...

Pastor Abelardo Lino Silva atua em comunidades cariocas e é respeitado por traficantes e facções

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 Padre Marcelo Pedroni Margon, da Paróquia São Pedro, na Vila Rubim, em Vitória, contou que já foi perseguido por homens armados (Foto: Leone Iglesias/AT)

“Quero falar com o chefe da boca. Preciso evangelizar neste local!” Cercado por jovens que escolheram matar ou morrer no mundo do crime, um pastor pede autorização para entrar em território do tráfico para levar a palavra de Deus.

Pedro Gusmão é fundador da Igreja Assembleia de Deus Ministério Quem se Importa e, com frequência, fica frente a frente com a morte. Ele não está sozinho. Todos os dias, dezenas de padres e pastores buscam difundir o evangelho em locais comandados pelo tráfico na Grande Vitória.

O padre Marcelo Pedroni Margon, da Paróquia São Pedro, na Vila Rubim, em Vitória, contou que aos sábados o grupo de oração da renovação carismática “Fruto do Espírito” oferece sopa também para usuários de drogas na região.

Margon afirma que é conhecido e que por isso anda a pé pelos locais de tráfico. Mas já foi perseguido por criminosos armados. “Tem vezes que pedem para eu não fazer a celebração em algum lugar da Ilha do Príncipe, porque está perigoso no dia, mas vou assim mesmo. Porque é lá que precisa.”

O pastor Lucas dos Santos, que administra uma igreja no bairro 1º de Maio e outra em Dom João Batista, em Vila Velha, destacou que o respeito dos traficantes pela igreja é tão grande que ele já foi chamado para livrar da morte pessoas juradas pelo tráfico.

“Já aconteceu da pessoa estar ameaçada pelo tráfico e a igreja pedir pela vida dela. Demos a palavra, conversamos e falamos que o menino queria sair. Eles respeitam muito. Hoje a gente fica muito feliz porque é uma alma que é salva. A gente acolhe aquela ovelha e leva para ser tratada se ela for viciada em droga”, afirmou.

Para o padre Kelder Brandão, o medo não é privilégio de quem vive nas periferias. Ele destacou que a cultura do racismo e da criminalização dos pobres está presente na sociedade e precisa ser superada. “Qual lugar do Brasil hoje não é um lugar violento?”, questionou.

O padre ressaltou que não só a Igreja Católica, mas todas as instituições presentes na periferia são fundamentais e ajudam muito quando promovem a emancipação e dão protagonismo aos moradores para que possam construir uma sociedade melhor. “Se não houvesse periferia, não existiria vida na sociedade”.

 (Foto: Leone Iglesias/AT)

Igreja na “Faixa de Gaza”

 (Foto: Kadidja Fernandes/AT)Os constantes conflitos entre facções rivais fizeram com que a área na divisa de Santa Rita e 1º de Maio, em Vila Velha, fosse apelidada de Faixa de Gaza em alusão à região do Oriente Médio onde palestinos e israelenses se enfrentam há décadas pelo domínio do local.

É nessa região da cidade canela-verde que o pastor Lucas dos Santos instalou sua igreja. Ele, que já teve uma vida no crime e ficou 19 anos atrás das grades, usa o próprio testemunho para resgatar almas.

“Uma vez estávamos evangelizando na rua, de mãos dadas, a facção rival invadiu onde estávamos e, quando eles iam atacar os meninos, viram os fiéis e recuaram”, revelou. Lucas acredita que há jovens que entram para o crime por falta de oportunidade e que a igreja ajuda com tratamento para os viciados.

“Há um mês abrimos outra igreja em Dom João Batista, Vila Velha. O bairro está em guerra, uma matança terrível. Estamos fazendo um trabalho de evangelização maravilhoso”, afirmou o pastor.

Cracolândia requer atenção

 (Foto: Leone Iglesias/AT)

Espalhadas pela Grande Vitória, as cracolândias são consideradas pelos religiosos que fazem trabalho de evangelização locais extremamente perigosos, pois, geralmente, os usuários estão consumindo drogas e ficam muito agressivos.

“São locais muito escuros. Quando a gente chega em cada cracolândia, só vemos as brasas dos cachimbos de crack acesas. Para quem não está acostumado, e até para nós mesmos, é tenebroso”, revelou o pastor Pedro Gusmão.

Ele citou onde ficam os principais pontos de consumo de drogas e apontou os mais perigosos. “Há várias cracolândias espalhadas na Grande Vitória. Na Serra, a maior fica em São Geraldo, perto da UPA. Ali, durante a noite, é uma terra sem lei. Em Vitória, na Vila Rubim, atrás da Santa Casa de Misericórdia, fica a mais violenta de todas. Tem dia que há mais de 50 pessoas consumindo droga. Em Vila Velha, fica perto do Terminal de Vila Velha”, detalhou o pastor Pedro.

“Estava evangelizando e começou um confronto”

Pastor Abelardo Lino Silva atua em comunidades cariocas e é respeitado por traficantes e facções (Foto: Dayana Souza/AT)Ainda criança, por volta dos 8 anos, Abelardo Lino Silva perdeu o irmão, conhecido como Pirata, e braço direito de Ubiratan, chefe do tráfico na Cidade de Deus, no Rio de Janeiro.

Pirata foi assassinado em um confronto com rivais no Recreio dos Bandeirantes, no Rio. Depois disso, Abelardo teve um primo preso por causa do envolvimento com o crime. Mesmo diante desse cenário, ele mudou sua realidade após começar a frequentar uma igreja evangélica, aos 13 anos.

Hoje, com 41, Abelardo é pastor e, com a inseparável Bíblia na mão, sai pelos becos e vielas das mais perigosas comunidades do Rio de Janeiro para evangelizar. “A gente se sente de alma lavada quando vê a pessoa se libertando”, disse.

A Tribuna – Como começou a evangelizar em favelas e presídios?
Abelardo Lino Silva – Comecei a evangelizar nos presídios de segurança máxima de Belo Horizonte, em 1998, depois que voltei de missão na África. Depois, meu sobrinho foi preso e comecei a fazer no Rio de Janeiro. Comecei a visitá-lo na delegacia, depois no presídio, e passei a participar dos cultos no presídio. Foi quando comecei a fazer o trabalho dentro do Complexo de Bangu e, depois, nas favelas, no Morro da Providência, no Complexo do Alemão, em Buraco do Boi, Nova Brasília e Vila Ipiranga.

Como essa missão na África ajudou com o trabalho nas comunidades?
Esse tipo de missão aumenta a fé da gente. A gente se sente de alma lavada quando vê a pessoa se libertando e sendo transformada. Quando eu cheguei na Providência, sempre evangelizava o rapaz que era responsável pelo morro. Até que um dia ele pediu para uma pessoa me ligar e pedir que eu fosse lá correndo. Quando cheguei lá, ele me deu a notícia: ‘A partir de hoje estou entregando tudo. Quero sair desta vida. Vou ser trabalhador’.
Poxa, foi a maior alegria para mim. Vi que o trabalho que estava fazendo não foi em vão.

Como é evangelizar em meio a tantas facções?
Comecei a evangelizar sem bandeira de facção nenhuma. Graças a Deus, no Rio, todas as facções respeitam os pastores e o povo de Deus. Pregava para Comando Vermelho, Terceiro Comando, ADA (Amigos dos Amigos), milícia, para todo mundo. Preguei muito também para policiais que estavam presos.

Tem noção de quantas almas salvou?
Para dizer a verdade, não tenho nem como contar, porque são muitas. Já resgatei pessoas à beira da morte no Jacarezinho e no Manguinhos. Já aconteceu de, no meio da evangelização, eu ter de correr com os traficantes, porque estava evangelizando e começou um confronto. A gente tem que correr também. Eu caí, fui rolando, quebrei a perna e tive que engessá-la toda.

Acha que a igreja lhe salvou do crime?
Acho que sim, porque a turma que eu andava foi toda se perdendo no tráfico. Algumas pessoas foram morrendo. Acho que Deus me escolheu, me resgatou e me colocou no caminho dele.

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