Dispostas a romper a barreira do silêncio e dar um fim em suas angústias, vítimas da violência doméstica buscam ajuda da polícia contra ameaças e agressões físicas e verbais feitas pelos companheiros ou ex-maridos.
Até maio deste ano, ao menos 6.168 mulheres em todo o Estado procuraram as delegacias especializadas de atendimento às vítimas desse tipo de crime para pedir socorro após se tornarem alvo de seus maridos, namorados ou ex-companheiros. O número equivale a 40 registros por dia.
Os dados da Secretaria de Segurança Pública do Estado (Sesp) apontam, ainda, que das mais de 6 mil mulheres que denunciaram algum tipo de agressão sofrida, 3.276 conseguiram medida protetiva de urgência, o equivalente a mais de 21 medidas por dia.

De janeiro a maio de 2019 foram 5.199 registros feitos nas unidades policiais, ou 969 casos menos que este ano.
A chefe da Divisão Especializada de Atendimento à Mulher (DIV-DEAM), delegada Cláudia Dematté, explica que, embora os números nos registros de violência doméstica tenham aumentado no Estado, isso não significa que todos os casos são registrados nas delegacias especializadas ou não.
“Sabemos que muitas mulheres podem ser vítimas desse tipo de violência. Porém, elas não estão tendo a coragem de denunciar seus autores de violência.”
Sobre o que impedem muitas vítimas de procurarem a polícia, a delegada explica que o medo do agressor é um dos fatores.
“Nesse momento de fragilidade emocional que essas mulheres vivem às vezes, por dependência financeira, a proximidade muito grande com o autor da violência gera o medo, impedindo as denúncias”, explica Dematté.
Quem viveu essa realidade por quase dois anos e não denunciou as agressões por medo, foi uma dona de casa, de 22 anos, que pediu para não ser identificada.
“Eu pensava que não daria conta de cuidar dos meus filhos sozinha e também tinha medo dele fazer algo comigo, caso eu me separasse ou procurasse a polícia. Mas depois de tantas humilhações e agressões, decidi que era hora de acabar com isso”, conta.
Registros da violência doméstica no Estado
Janeiro a maio de 2020
- Boletins de ocorrência – 6.168
- Medidas protetivas – 3.276
- Prisão em flagrante delito realizadas – 639
- Mandados de prisão cumpridos – 66
Depressão após relacionamento abusivo

Ela chegou a perder 7 quilos durante o relacionamento abusivo. O consumo de remédio para tratar a depressão se tornou rotina. “Além disso, meus filhos também foram atingidos, pois eu sei que eles sofrem em silêncio”.
Separada do agressor há alguns anos, Raquel conta que procurou a polícia, após ter sofrido ameaças do ex-marido.
“Ele chegou a dizer para minha filha (na época com 5 anos) que cortaria a minha cabeça. Denunciei e apesar de não ter problemas com ele, hoje sofro dessa doença”.
Cartilha para orientar vítimas
Com o objetivo de orientar mulheres que foram ou que estão sendo vítimas nas mãos de agressores no Estado, residentes em Serviço Social da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) criaram uma cartilha para ajudar as vítimas.

A elaboração da cartilha, chamada de “Violência contra a mulher em tempos de quarentena”, foi motivada após a divulgação de dados do Ministério da Mulher, da Família e dos Direitos Humanos (MDH), que constatou aumento no número de casos durante os primeiros meses da pandemia, atingido aumento de 28%.
“A cartilha tem como objetivo trazer informações para as mulheres, que estão totalmente suscetíveis a qualquer tipo de violência, por conta do isolamento social. Nela, identificamos os tipos de violência, o que é e alguns conceitos”, explica uma das idealizadoras do projeto Mônica Gonring, assistente social residente multiprofissional em atenção à saúde da criança e do adolescente da Ufes.
O material está disponível no site da Ufes e é divulgado em vários grupos de conversas por aplicativo como WhatsApp.
Ainda assim, Mônica Gonring frisa a importância de se compartilhar a cartilha para alcançar todas as mulheres. “Quanto mais informações essas vítimas tiverem, melhor”.
SAIBA MAIS
Violência doméstica
- É a agressão praticada dentro de casa, que gera sofrimento físico, moral , sexual e/ou psicológico.
- Pode envolver, por exemplo, pais, mães, irmãos, irmãs, padrastos, madrastas, marido, mulher, companheiros e companheiras, mesmo que eles não dividam a mesma casa com a vítima.
- A violência contra a mulher é considerada violência de gênero.
Tipos de violência
- Física: É a agressão ao corpo, que pode ser feita por meio de socos, empurrões, beliscões, mordidas, chutes ou pelo uso de armas.
- Psicológica: É a agressão verbal, ameaças e humilhação.
- Moral: É a utilização de palavras que ofendem, mentem e desqualificam.
- Sexual: É a prática do sexo sem consentimento com o uso da força e/ou sob ameaça, mesmo quando ocorre com o seu próprio parceiro(a) ou companheiro(a).
- Patrimonial: É a que provoca danos, perda ou retenção de bens materiais e valores que limitem a autonomia da mulher.
Gênero
- Discute sobre a construção social do que é ser mulher e do que é ser homem na sociedade.