
Sem meias palavras e com o objetivo de virar um ponto fora da curva do atual Senado, Ricardo Ferraço (PSDB) disparou duras críticas contra o próprio partido e afirmou que existe um “acordão” para salvar os mandatos do senador e presidente nacional licenciado tucano, Aécio Neves (MG), e do presidente Michel Temer (PMDB).
Os dois foram denunciados por corrupção passiva e obstrução da Justiça pela Procuradoria-Geral da República (PGR) após a divulgação de conversas com o empresário Joesley Batista.
Ricardo explica os motivos que o levaram a pedir licença do mandato de senador e avaliou como “controversa” a decisão do Conselho Estadual de Ética Pública que liberou César Colnago a ocupar simultaneamente o cargo de vice-governador e a presidência estadual do PSDB, caso seja eleito nas eleições de 11 de novembro.
Durante sua licença, o suplente Sérgio Rogério de Castro (PDT) assumirá o mandato.
A Tribuna – O partido se reuniu hoje (sábado) um dia depois de o Conselho de Ética ter dado o aval para Colnago. Qual foi o resultado?
Ricardo Ferraço – Se meu nome servir para consolidar esse consenso, eu estou à disposição. Caso contrário, não. A questão central não me parece os nomes, mas sim a construção de um procedimento interno que possa dar as nossas decisões um ambiente de compartilhamento.

Na segunda-feira (amanhã) nós vamos ter uma conversa: eu, Max Filho (prefeito de Vila Velha que pleitea a presidência) e Colnago, para tentarmos uma unidade. Não tem nada emperrando.
A decisão do Conselho de Ética que teve voto escrito não validado gera um desgaste para candidatura de Colnago?
Primeiro é necessário reconhecer a controvérsia. Não foi uma decisão unânime. Essa reflexão em relação a essa controvérsia está no bojo da conversa de segunda.
O senhor não teme perder a vaga à reeleição com a mudança no comando do PSDB?
Sem querer fulanizar quem será o presidente do partido, a decisão em hipótese alguma será imperial. Será uma decisão construída de forma compartilhada.
Em 2010, o senhor era cotado para disputa do governo, mas foi preterido. Essa ferida 
Tive 1,577 milhão votos, em 2010. A maior de um político no Estado. Esse episódio é página virada e não há trauma. Houve esse incidente, que é inegável e disputei o Senado.
Por que decidiu tirar a licença do Senado?
Há um fosso grande entre políticos e sociedade. Cheguei à conclusão (de pedir licença) sobretudo depois da decisão da semana (que derrubou a decisão do Supremo Tribunal Federal sobre afastamento de Aécio Neves do mandato). Ficou evidente na votação que a maioria do meu partido está como irmãos siameses dos rumos do governo Temer. Foi uma espécie de acordão que envolve a manutenção do governo Temer e a preservação do mandato do senador Aécio Neves. Essa aliança dialoga com o corporativismo e a impunidade.
Não seria melhor estar no Senado e combater o que chamou de acordão?
Existem forças convergentes que se estruturaram para construir essa hegemonia. Sinceramente, neste período, acho que ficar mais no Espírito Santo e menos em Brasília vai ser melhor.
Melhor, como?
Se eu tirar a licença agora, volto ao Senado no final da primeira quinzena de fevereiro. O bom combate que tenho feito não é suficiente para fazer o enfrentamento dessa aliança que está constituída para dar essa sobrevida ao governo Temer e criar condições para abalar os efeitos da Lava a Jato.
Não quero ser testemunha muito menos avalista disso. Quero estar próximo dos capixabas para debater a construção de um novo Senado e um projeto para o País.
O senhor afirma que vai conversar com os eleitores. Será para viabilizar sua candidatura?
Quando tomo uma decisão como essa, em hipótese alguma estou dizendo que vou começar a campanha política.

Aécio foi denunciado por corrupção e é um dos avalistas da sua volta ao PSDB. Se arrepende de ter tido ele como padrinho?
Partido não é uma confraria. O fato de ter sido convidado pelo Aécio para vir para o PSDB não significa dizer que eu tenha responsabilidade com os atos dele como ele também não tem sobre meus atos.

É um absurdo completo isso que o senador Aécio está falando. Tudo que ele deveria fazer é ter bom senso para pedir seu afastamento em definitivo. Toda pessoa goza da presunção da inocência. Aécio não está em condições de exigir absolutamente nada. Muito pelo contrário. Ele tem causado prejuízo enorme ao partido. O que está fazendo é prejudicar o interesse coletivo em torno do seu próprio interesse. Tenho absoluta confiança no projeto liderado pelo Tasso.
O PSDB se divide entre Geraldo Alckmin (governador de São Paulo) e João Doria (prefeito de São Paulo) para ser o candidato a presidente. De que lado o senhor fica?
A meu juízo, o candidato natural, com todos os méritos do João Doria, é o governador Geraldo Alckmin, que deverá ser o nosso candidato em 2018.
Quais provas são mais robustas? As contra Lula ou Aécio?
(Após uma pausa). No caso do Lula tem condenação, e no caso do Aécio tem uma gravação dele com o Joesley Batista com revelações gravíssimas. Os dois fatos têm características graves. Não existe uma mais grave que a outra.
Reportagem: Vitor Carletti