
“Vou atender o mandado deles [de prisão]. Vou atender porque quero fazer a transferência de responsabilidade”, afirmou, do alto de um carro de som colocado em frente ao Sindicato dos Metalúrgicos do ABC, onde ele iniciou sua carreira política, nos anos 70.
Até as 14h, Lula não havia se entregado à PF, para ser levado a Curitiba. O petista, condenado a 12 anos e 1 mês de prisão em razão do caso do tríplex em Guarujá (SP), falou ao final de uma missa aberta em homenagem a sua mulher, Marisa, morta em 2017.
Seu discurso foi antecedido por um coro de “não se entrega!”, mas ele disse que à multidão que não iria fugir, mesmo tendo tido oportunidade para isso.
“Eu tive chance agora, porque estava no Uruguai, e as pessoas diziam que era só atravessar a rua, fingir que ia comprar um uisquezinho. Eu falei que não tenho mais idade, na minha idade é enfrentar olho no olho”, afirmou.
Diversas vezes durante o discurso de 55 minutos, Lula procurou caracterizar sua apresentação à PF como uma vitória de suas ideias e a preservação de seu legado político e o do PT.
“Quantos mais dias eles me deixarem lá, mais Lulas vão nascer nesse país. Estou fazendo uma coisa muito consciente. Se dependesse da minha vontade, eu não iria, mas eu vou. Eu não estou escondido, eu vou lá nas barbas deles, para eles saberem que eu não tenho medo, que eu não vou correr”, declarou.
LIMINAR
A última esperança de evitar a prisão de Lula ruiu pela manhã, quando o relator da Lava Jato no Supremo, ministro Edson Fachin, negou pedido de liminar dele.
Ao subir no palanque improvisado no caminhão, portanto, o ex-presidente já sabia que não era mais possível evitar a prisão.
Por isso, pontuou seu discurso com chamados a que a militância não esmoreça em sua ausência.
“Não adianta evitar que eu ande por esse país, porque tem milhões de Lulas. Minhas ideias já estão pairando no ar”, declarou.
“Vocês vão ter que virar Lula, andar por esse país fazendo o que têm de fazer. Eles têm que saber que a morte de um combatente não para a revolução”, afirmou.
O ex-presidente fez questão de citar com elogios as principais figuras da esquerda ali presentes, incluindo os presidenciáveis do PSOL, Guilherme Boulos, e do PC do B, Manuela Dávila, além do petista Fernando Haddad, que poderá assumir a candidatura do partido.
Em diversos momentos, houve ataques a dois de seus alvos preferenciais, a imprensa e a Lava Jato.
Sobre os veículos de comunicação, disse que fica imaginando “o tesão da Veja e da Globo colocando a minha foto preso”.
Contra o juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato, reservou as passagens mais cáusticas, dizendo que não perdoa os que passaram ao país a imagem de que ele é um ladrão.
Apesar disso, disse que não é contra a investigação em si.
“Não pense que eu sou contra a Lava Jato. A Lava Jato tem que pegar bandido mesmo e prender. Todos nós dizíamos que no Brasil só se prende pobre, não rico. O problema é que você não pode fazer julgamento subordinado à imprensa”, declarou.
Num único momento, se emocionou: ao dizer que ali estava junto de seus amigos de verdade.
“Eu dizia: ‘quando sair da Presidência, saberei quem são meus amigos’. Os de gravatinha que iam atrás de mim agora desapareceram”, afirmou, embargando a voz.
Após o discurso, Lula desceu do caminhão e foi carregado no ombro de um militante até a parte interna do sindicato, onde almoçou antes de se entregar.