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“Não sei como a França resistiria à crise que o Brasil conhece”, diz professor francês da Ufes

Foto: Reprodução/Facebook A crise brasileira está sendo acompanhada de perto por países até de outro continente. Duvida? Basta conversar com o ...

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Michael Soubbotnik Foto: Reprodução/Facebook

A crise brasileira está sendo acompanhada de perto por países até de outro continente. Duvida? Basta conversar com o professor de história política da Universíté Paris-Est Marne-la-Vallée, na França, e da Universidade Federal do Espírito Santo (UFES), o francês Michael Soubbotnik para observar isso. Casado com uma brasileira, ele se divide entre os dois centros universitários e, obviamente, entre os dois países. Em entrevista ao Tribuna Online, Soubbotnik fala sobre eleições, Lava Jato, corrupção e a necessidade do Brasil desempenhar maior protagonismo na política internacional.

Tribuna Online – O senhor tem a vivência dos dois países, França e Brasil. Em termos políticos, qual a principalmente diferença?

Michael Soubbotnik – Não há melhor ou pior. O Brasil é um país com pouco mais de 500 anos e os países europeus têm uma linha de história que vai até a antiguidade romana. Outra grande diferença política, que é muito importante, é o fato dos países europeus fazerem parte de uma União Europeia, que é diferente do Mercosul que se formou aqui, inicialmente, do ponto de vista econômico. Na Europa, houve uma série de guerras e duas delas mundiais, extremamente pesadas, como se fossem desastres continentais. A história da Europa é de desastres continentais. Isso é uma grande diferença da perspectiva histórica. Uma segunda grande diferença é geográfica. A França tem a superfície de Minas Gerias. O Brasil é um continente. São milhares de quilômetros sem encontrar outra língua e onde se encontra apenas povos brasileiros. Isso é uma característica do Brasil e dos EUA, o fato de não encontrar o estrangeiro. Não é assim na França.

Do ponto de vista político, as instituições brasileiras, não estou falando do funcionamento, são mais protetoras da democracia que as instituições francesas. Há divisão dos poderes, há independência do Judiciário. São dados institucionais que não conhecemos na França. Outros países europeus conhecem. A França é mais centralizadora.

Michael Soubbotnik Foto: Reprodução/Facebook

E quanto à política internacional?

A França é um membro do Conselho de Segurança da ONU. Isso tem uma importância enorme na política internacional. Também é uma potência nuclear. É um país que, queira ou não, se encontra no meio dos assuntos mundiais. Isso tem consequências na politicas institucionais francesas. O peso nas forças armadas é maior. Cada ato é uma decisão. Intervir ou não. Se mexer ou não. Tudo tem um significado.

A situação do Brasil, do ponto de vista da política internacional é esquisita. Em vista do exterior, parece que o Brasil deveria ter um papel absurdamente decisivo, ao menos na América do Sul, por causa do seu tamanho e de ter uma democracia robusta, porque está resistindo a crises absurdamente enormes. Não sei como a França resistiria ao tipo de crise que o Brasil conhece há anos. Crise econômica, política, institucional. Ao mesmo tempo as instituições funcionam. Tem problemas de corrupção e desvios. Mas o País não cai na ausência da democracia e nas tentações que vivemos em alguns países da União Europeia. Mas, me parece que o Brasil está um pouco atrás do papel que poderia ter. Em questão internacional, até como potência moderada, poderia desempenhar um papel maior.

Michael Soubbotnik Foto: Reprodução/Facebook

Falando em corrupção, como a Lava a Jato tem sido vista no exterior?

Com muito esforço, eu entendi o que está acontecendo no jogo complicado do congresso (brasileiro). Esse sistema é fechado para os jornalistas franceses. Não encontrei um só jornalista que entendia corretamente a politica brasileira. Quando falam da Lava a Jato é para elogiar. Conhecemos o destino da Operação Mani Pulite (Operação Mãos Limpas). Então, tem um certo ceticismo. Mas, a Lava a Jato é sempre comparada à operação italiana. Faz sentido porque até o juiz Moro sempre compara.

Uma grande diferença entre a Itália e o Brasil é a situação da imprensa. A imprensa italiana não era livre. Silvio Berlusconi era o proprietário de quase todas as mídias, o que não é caso do Brasil. Há grupos, claro. Mas há grupos de imprensa com uma variedade de posições. É impossível dar falsas informações, porque vai ter sempre a mídia que dará os fatos. Isso não aconteceu na Itália. Porque o Berlusconi tinha o controle da imprensa.

A imprensa aqui é livre. Isso é um dado importante da Lava a Jato, apesar dos esforços da classe política escapar e dos recursos do Judiciário. No Brasil, uma ação da promotoria vai parar no jornal. As tentativas de impedir o trabalho da Lava a Jato são complicadas e envolvem muitas pessoas. Mas, ocorrem de forma mais ou menos pública e provocam reação. Na França isso seria secreto. Não significa que existe muita corrupção na França. Tem menos corrupção que no Brasil. Mas, desde o Mensalão, a reação brasileira a uma corrupção gigantesca é mais dura, mas violenta e mais pública que as reações francesas. Temos menos corrupção, mas talvez mais hipocrisia.

Há quem diga que o Brasil precise de um candidato novo para a presidência como o Emmanuel Macron foi para a França?

Ele não era complementa novinho no mundo político. Jovem, mas não novo. Ele era membro do partido socialista francês, que agora está em ruínas. Ele era o assessor principal de François Hollande. Uma função onde tinha uma vista bastante geral da situação e das fraquezas do governo. Também foi ministro da Economia, antes de entender que a divisão interna e a primeira parte do mandato colocaram o partido socialista e o governo em uma situação sem saída. Macron saiu com um plano de carreira que já tinha há bastante tempo. É um cara ambicioso. Desempenhou um papel e escolheu um movimento com jovens. Encontrou um certo apoio nisso e tinha boa relação com muitas pessoas do parlamento. Também encontrou uma situação favorável com um partido dividido. Ele encontrou a virtú, como disse Maquiavel, e a fortuna também (risos). Macron não sabia que o candidato da direita teria problemas com a justiça. A direita, então, explodiu e parte foi com ele, assim como parte da esquerda. Temos então um presidente do centro.

E no Brasil, cabe um Macron?

A grande questão de votar em Macron era econômica. O macronista brasileiro seria Henrique Meireles, com as suas reformas. Mas há pontos importantes na pauta e paralelos com o parlamento francesa. Na reforma trabalhista, as ideias sãos mais ou menos semelhantes. A situação de partida que são bastante diferentes. A estrutura brasileira, herança de uma Era Vargas, é diferença da francesa que tem composição do movimento sindical. Mas têm pontos semelhantes entre as duas reformas, como a intenção de privilegiar a negociação na empresa. Exatamente o que reforma francesa fez.

Segundo ponto é que tem a questão da reforma da previdência. Já tivemos na França, várias. Com cada governo tem que fazer. Da minha geração, para se aposentar, tem que ter 40 anos de trabalho. Aposentaria integral na França significa, no máximo 80%, do seu salário no caso de funcionário público, de acordo com o salário dos dois últimos anos. Para funcionários de empresas privadas é mais dura. Tem que ser 75% da média do salário de toda carreira. E com isso precisamos de uma nova reforma.

Acho o que o paralelo é que a França tem que fazer jogo duro, exatamente como o Brasil está tentando fazer. A preocupação é a mesma: continuar um sistema de solidariedade entre as gerações. Também tem a terceira coisa que é aliviar o peso da burocracia do estado, que é maior no Brasil, mas também enorme na França se comparo com outros países da União Europeia.

O que esperar da eleição 2018?

Isso é difícil porque tenho minhas esperanças de brasileiro (risos). O que se espera é que o Brasil saia do populismo, qualquer que seja, de direita ou de esquerda. Isso é sempre uma ameaça à democracia. Devem ser mantidas as instituições. Espero para o Brasil um presidente competente e uma dose de honestidade. São esperanças realistas. Mas pelo momento não vejo uma chegada de uma figura nova. Pode acontecer, mas não vejo isso.

Deve haver também uma grande esperança por mais segurança jurídica do ponto de vista do STF. Vai ou não voltar atrás das decisões que tomou anteriormente para um condenado em segunda instância ser candidato. Essa é uma incerteza.

O fato de ter é uma grande insegurança impede uma campanha franca. Lula pode ser candidato ou não? A insegurança jurídica faz com que Ciro Gomes fique morrendo de vontade de ser candidatar (risos). Temos que saber quem pode se candidatar ou não. Faz parte da insegurança o fato de Renan Calheiros não está na linha de sucessão porque é réu. Agora tem que saber se um condenado, se injustamente ou não, pode ser candidato. Existe uma contradição. Espero que seja resolvida.

Reportagem: Luiz Fernando Brumana

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