Uma “dor da alma” que não se resolve com remédio ou sozinho. Tão forte que o melhor caminho parece ser tirar a própria vida. Foi assim que, num dia nublado na memória, o hoje senador Marcos do Val (Podemos) se sentou na janela de seu quarto, no oitavo andar do prédio onde morava, em Vitória.
A porta estava aberta e permitiu que o irmão o encontrasse, já no parapeito, e o segurasse. “Eu briguei muito com ele, fiquei muito chateado porque ele estava me cerceando a oportunidade de parar de sentir dor”, revelou.
A partir daí, com ajuda profissional de psiquiatra, psicólogo e o apoio da família, o instrutor de forças de segurança conseguiu se reestruturar e tratar a depressão que quase o levou ao suicídio.
O quadro de Do Val com a doença começou na adolescência, após a separação dos pais. “Eu dormia muito. Só queria ficar deitado e dormir. Dormia o dia inteiro. Mas, como era adolescente, as pessoas pensam que é um vagabundo, que não quer nada com nada”, contou.
Um dos fatores que o fez, já adulto, entrar numa crise depressiva, foi a participação no caso do sequestro da jovem Eloá Pimentel, ocorrido em São Paulo, em 2008.
No processo de tentar lidar com a avalanche de críticas que sofreu após a morte de Eloá, Do Val acabou se divorciando e vendo a então mulher e filha se mudarem dos Estados Unidos, onde a família vivia, para o Espírito Santo.
“Ver o quarto da minha filha todo vazio, aquilo ali me jogou no chão! Aquilo ali foi um nocaute”, recordou. Após uma conversa com um amigo da SWAT (unidade da polícia dos Estados Unidos), Do Val decidiu voltar ao Brasil.
Aqui, iniciou tratamento da depressão, quando chegou a se sentar na janela. “As terapias eram diárias. Tomei remédio, o que me ajudou a voltar a raciocinar. E assim eu consegui sair, enxergar que não era aquele o meu caminho. E tive apoio da família. São os três pilares”, revelou.
E emendou: “A dor insuportável passa. Só não podemos desistir”. Além de Do Val, os ex-prefeitos de Vitória, João Coser (PT), e de Aracruz, Marcelo Coelho (PDT), além do advogado André Moreira (Psol), aceitaram o convite de A Tribuna e relataram o que viveram e como venceram a doença.
João Coser perdeu 22 quilos em 60 dias, teve fé e apoio da família
Foram 22 quilos perdidos em 60 dias. Muitos passados na cama, sem vontade de comer, de sair ou de participar dos compromissos de campanha. Viagens a municípios do interior do Estado, ao lado de companheiros de longa data, foram feitas em silêncio.
“Essa doença te desmonta como pessoa! O mundo cai na sua frente. Foi devastador”, confidenciou João Coser, ex-deputado federal, ex-prefeito de Vitória e prestes a deixar o mandato como presidente do PT no Estado e seguir para uma vida mais simples, “na roça”.
Na sede do partido, no centro de Vitória, Coser contou que o processo eleitoral de 2018 foi sofrido.
Vindo de um desgaste dentro do PT, ao qual é filiado desde 1981, por conta da eleição estadual em 2017, na disputa contra o atual diretor-geral do Detran, Givaldo Vieira (PCdoB), além de um desencanto pessoal, o fato de ter que decidir, como voto de “minerva”, a candidatura ou não do partido ao governo do Estado, pesou.
Ao longo da campanha, ele pensou em desistir da candidatura. Em uma das atividades, não conseguiu fazer seu discurso. “Não saía nada”. Decidiu, porém, se manter no pleito pelo partido.
Ainda em recuperação, além do tratamento com um psiquiatra e terapia, Coser destacou o amor da família, da filha Karla, e sua fé católica como fundamentais. “Hoje, voltei a correr, a malhar, a ouvir música e quero tocar a minha vida. Estou feliz”, sorriu.
Engasgo e falta de ar com a doença
A depressão se manifesta de diversas formas. No caso do advogado e presidente estadual do Psol, André Moreira, a reação foi física.
“Eu tinha um engasgo e, qualquer coisa que eu engasgasse, parecia que eu ia morrer. Entrava numa situação de falta de ar que eu ficava asfixiando numa agonia incrível”, revelou.
Moreira teve episódios no banho algumas vezes, acordou asfixiando, chegou a cair no chão em um restaurante e dentro do mar, com o filho no colo.
“Eu cheguei mais cedo em casa para ir com o meu filho à praia. Entrei no mar com ele no colo, meu filho devia ter uns 6 anos. Quando bateu a água no peito, eu senti a garganta travar. Na hora, eu consegui segurar, saí da água com ele e comecei a passar mal na beira da água enquanto ele saiu correndo para pedir ajuda. Aquilo me cortou o coração”, relatou.
O advogado disse que a situação “virou um terror” dentro de casa. Mulher, filhos, amigos sempre olhando para ver se ele estava respirando. O psolista buscou ajuda psicológica e psiquiátrica.
“O remédio foi fundamental para passar pela crise. E o tratamento me ajudou a entender o processo e saber controlar”, pontuou.
Para Moreira, a atividade política é vista como uma terapia. “Eu me engajo numa coisa que me livra desse processo. Foi uma das coisas que eu fiz para não chegar à crise novamente”, destacou.
“Pensei em desistir do mandato”, diz Marcelo Coelho
Deputado estadual e vencedor das eleições de 2012 para prefeito de Aracruz com 28.966 votos, Marcelo Coelho (PDT) perdeu o filho em um acidente de carro, durante a campanha eleitoral.
“Não foi fácil, ninguém está preparado para perder a quem se ama. O amor que sentimos não passa, é eterno, mas as dores vão se atenuando com o tempo e cedendo lugar as boas lembranças dos momentos felizes que vivemos junto dessas pessoas e pelos quais devemos ser gratos a Deus”, contou.
Hoje agricultor e afastado de atividades políticas, Coelho disse que teve depressão e procurou ajuda profissional para tratar a doença.
“Usei medicamentos e esse foi o momento mais difícil da minha vida. Pensei várias vezes em desistir do mandato, mas, ao mesmo tempo, não podia trair a confiança das pessoas. Lembro que sentia uma tristeza imensa, uma dor insuportável e me perguntava se teria forças pra resistir e se conseguiria superar aquele momento”, relatou.
O ex-deputado contou que, hoje, sua única terapia é fortalecer sua fé, ter mais tempo para família e amigos, e viver em paz.
“É tratável e existe solução”, diz Vidigal
A depressão é uma doença e deve ser tratada sem tabus, segundo especialistas. Eles dizem que o preconceito ainda é um dos fatores que mais dificulta que as pessoas procurem ajuda. A depressão tem cura e tratamento.
O deputado federal Sergio Vidigal (PDT), que é médico psiquiatra, afirmou que é preciso humanizar a depressão. “Precisamos criar uma verdadeira empatia. Quem diz ‘nunca vai acontecer comigo’ ou ‘só acontece com gente fraca’ está muito enganado. A depressão pode acometer qualquer um de nós. E se está doente, é preciso procurar um profissional. É tratável e existe solução”.
Vidigal disse também que o sentimento de tristeza quando nos frustramos ou passamos por uma situação difícil, como a perda de um ente querido, é natural. O problema é quando esse humor pessimista se torna duradouro.
“A pessoa passa a não ver mais sentido nas coisas, a ficar desmotivada e perder interesse em atividades que antes davam prazer. A doença é extremamente incapacitante. Tira o indivíduo do convívio social, interfere nas obrigações profissionais. Tudo vai se tornando um fardo”, explicou.
O médico ainda destacou que os sintomas variam muito e não é possível dar um diagnóstico único para a depressão. “Adoecer não é motivo de vergonha. Precisamos perder qualquer preconceito para que as pessoas não se sintam sozinhas ou isoladas”, enfatizou.
A psicóloga Paula Bauducci ressaltou que nem toda a pessoa que é acometida pela depressão tem a questão suicida. Para ela, tanto a depressão quanto o suicídio ainda são cercados de diversos tabus e preconceitos.
“É preciso desmistificar isso. Há milhares de pessoas famosas, empresários, artistas, políticos, que têm depressão. E essas pessoas têm dinheiro, viajam, trabalham com o que amam e, mesmo assim, têm depressão. Algumas chegam ao suicídio. Por quê? Porque existe alguma coisa dentro da pessoa que não está bem resolvida”, explicou.
Paula Bauducci chamou a atenção para o fato de que há ainda muito julgamento a respeito do suicídio. E que, muita das vezes, a pessoa nessa situação não tem clareza sobre o que está fazendo, quer apenas parar a dor que está sentindo.
“Não existem culpados. Existem fatores que acabam ajudando de alguma forma o suicídio acontecer. É importante que a família fique atenta aos menores sinais, porque é possível evitar esse tipo de situação”, destacou.




