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Saúde

A velhice sob o sol da lucidez

Dr. João Evangelista é gastroenterologista e clínico geral Caduco vem de cadente, lembrando estrelas que caem do céu. O termo refere-se à perda ...

Última atualização

Dr. João Evangelista / Arquivo AT Dr. João Evangelista  é gastroenterologista e clínico geral

Caduco vem de cadente, lembrando estrelas que caem do céu. O termo refere-se à perda global das funções cognitivas, como atenção, percepção, memória, raciocínio, juízo, imaginação, linguagem e ação, com prejuízo funcional para o indivíduo, isto é, cerceando sua autonomia e independência.

A memória está intimamente ligada à maneira como armazenamos informações e reconstruímos experiências passadas. Através dela, damos sentido às nossas experiências. Não há tempo sem um conceito de memória. Não há presente sem uma definição de tempo. Não há realidade sem memória e sem uma noção do presente, passado e futuro.

A memória é o nosso senso histórico e a nossa noção de identidade pessoal. Sou quem eu sou porque lembro quem sou. A conservação do passado, através de imagens ou representações que podem ser evocadas, é atributo da memória.

O esquecimento é parte da formação da memória. Ele está relacionado à aprendizagem, embora ainda não tenhamos clareza de como funciona esse processo. Sabe-se, no entanto, que a memória tem caráter seletivo, isto é, o cérebro escolhe o que lembrar.

Para aprender alguma coisa, temos que esquecer outras. Existem ainda os chamados lapsos de memória. Eles costumam acontecer em qualquer idade, podendo ser apenas uma distração ou mesmo sintoma de cansaço.

O processo de envelhecimento deixa o indivíduo mais suscetível a perdas cognitivas, que podem ser desde falta de atenção ou esquecimentos leves, até perdas graves da memória, como a que ocorre na demência senil. Isso acontece, em parte, porque a atividade dos neurônios, que trabalham armazenando os acontecimentos na memória, torna-se mais lenta. Além disso, ocorre diminuição da quantidade de informação armazenada. É por isso que, para o idoso, é mais fácil lembrar-se de algo que aconteceu na adolescência, do que daquilo que acabou de ocorrer.

Acreditava-se, erroneamente, que o esquecimento dos idosos se devia ao endurecimento dos vasos cerebrais. No entanto, esse enrijecimento, denominado arteriosclerose, é responsável por apenas 20% dos casos de déficit de memória.

Uma das patologias mais comuns na velhice, relacionada com as falhas de memória, é a Doença de Alzheimer.

Não se sabe ainda porque essa enfermidade se manifesta, mas já foram descritas duas características no cérebro de pacientes acometidos pelo Alzheimer. Eles apresentam as chamadas placas senis, decorrentes do depósito de proteína beta-amiloide, produzida de modo anormal. Outra alteração é a redução do número das células nervosas e das ligações entre elas, com redução progressiva do volume cerebral.

Nem todas as pessoas que envelhecem terão esse tipo de acometimento. A maioria chegará ao limite da vida gozando de plena consciência e equilíbrio mental.

Quanto mais o indivíduo usa o cérebro e quanto mais exercícios mentais ele faz, menor a probabilidade de desenvolver demência. Enfermidades sistêmicas são agravantes dos distúrbios mentais. Diabetes, hipertensão, alcoolismo, tabagismo e, especialmente, doenças vasculares cerebrais, são fatores de risco para doenças mentais.

Evitar que enfermidades crônicas permaneçam sem controle e, acima de tudo, dar ao cérebro razões para estar constantemente funcionando, mesmo depois do término das atividades profissionais, afasta os quadros demenciais.

Pequenas alterações de memória recente em indivíduos com mais de 65 anos de idade são consideradas normais. Perda de memória geralmente ocorre na demência, mas, sozinha, não significa que o indivíduo tenha demência.

A lucidez é o farol que nos afasta das margens do rio do esquecimento. Sem ela, vivemos despertos num sono sem sonhos.

João Evangelista Teixeira Lima é gastroenterologista e clínico geral

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