Os recentes casos de sarampo no Brasil acenderam o alerta sobre o risco da volta de doenças antigas, que muitos pensavam estar erradicadas pelo baixo ou mesmo nenhum registro delas no País.
O presidente da Sociedade Brasileira de Pediatria, seccional Espírito Santo, Rodrigo Aboudib Pinto Ferreira, lembrou que a volta do sarampo, da poliomielite, da difteria e da tuberculose, por exemplo, pode acontecer devido aos baixos índices alcançados nos últimos anos na vacinação.
“As pessoas passaram a não querer mais vacinar os filhos. As mídias sociais eternizam as informações, verdadeiras ou não, e as pessoas têm necessidade de replicar, sem confirmar a fonte, a veracidade”, destacou o médico, alertando que a atenção a essas doenças deve ser contínua. Confira a entrevista completa.
A Tribuna – Muitas pessoas acham que as doenças antigas estão erradicadas, e isso não é verdade, certo?
Rodrigo Aboudib Pinto Ferreira – Com certeza. Tanto o sarampo quanto a poliomielite voltaram por duas razões. A primeira é fruto da desinformação ou de uma informação equivocada. Uma revista de prestígio médico, a The Lancet, publicou pesquisa que associava a vacinação ao autismo. Só que foi desmascarada depois, e as pessoas não souberam disso. Esse sentimento antivacinal existe em várias partes do mundo. É a face exposta de uma cultura baseada em informações inverídicas. A segunda é que estamos vivendo uma crise no país vizinho já há algum tempo e, com a imigração, as pessoas vieram para cá sem as vacinas em dia, trouxeram o vírus e ele se disseminou ao encontrar parte da população aqui não vacinada.
Como a incidência era pequena, as pessoas acabaram negligenciando a proteção a essas doenças antigas?
Os índices vacinais no País diminuíram para todas as doenças, não só para essas, o que reforça essa questão cultural da campanha antivacinal que existe em algumas áreas do mundo se reverberando em nosso país.
Existe a possibilidade de surgir um novo surto de tuberculose e poliomielite, por exemplo?
A poliomielite tinha sido erradicada das Américas, mas infelizmente voltou. Nós também temos algumas áreas endêmicas de tuberculose no País. O retorno dessas doenças já é suficiente para que a gente acenda o alerta dos riscos à saúde das nossas crianças e da população em geral. Há algum tempo tivemos risco de epidemia de cólera, de tempos em tempos isso acontece.
Qual é o maior desafio hoje para o controle dessas doenças?
Retomar a cultura da vacinação é um grande desafio. A efetiva responsabilização dos pais. Nós já víamos nos consultórios e ambulatórios alguns pais com a fala de que não queriam vacinar. O que eu fiz: escrevi uma carta ao Ministério Público indagando sobre que postura devíamos ter, porque o Estatuto da Criança e do Adolescente traz a criança como ser incapaz. Então, o responsável capaz é que tem a efetiva obrigação de vacinar os filhos. O promotor nos orientou que, em caso de negativa da vacinação, nós devemos denunciar os pais ao Ministério Público. Não vacinar é uma irresponsabilidade atroz.
As crianças são mais suscetíveis a essas doenças?
A criança não é um adulto em miniatura, é um ser onde os diversos órgãos vão amadurecendo cada um ao seu tempo. Por isso os esquemas de vacinação da criança são divididos em várias doses e elas tomam reforços. Isso acontece porque o sistema imunitário ainda é imaturo, e você vai estimulando o corpo dela devagar para ter uma resposta de defesa maior. No adulto, em geral, você faz uma dose e ela é suficiente.
A reportagem completa você lê no jornal A Tribuna deste domingo (22).
