
Elas superaram a vergonha do próprio corpo, passaram a enxergar a beleza fora dos padrões, e hoje se sentem mais felizes
O que Milena, Thais, Enza, Carleane e outras mulheres têm em comum? “Todas são gordinhas, cheinhas”, diriam alguns. Outros ainda completariam: “São lindas, só precisam emagrecer”. Mas não é o tamanho que vestem que as tornam semelhantes, e sim a aceitação real do corpo. Não sentem vergonha de usar biquínis e decotes nem têm medo de assumir as gordurinhas.
A palavra gorda não é um problema para elas, apenas uma característica, diz a modelo e maquiadora Enza Della Kroeff, 27 anos.
“Tenho uma boa relação com a palavra gorda. Para mim é só mais uma característica, como alto e baixo. Acho que na sociedade de hoje a palavra magro virou elogio e a palavra gordo virou ofensa. E isso tem de ser desmistificado.”
Mas se engana quem acha que a autoestima dessas mulheres sempre foi inabalável. Muitas sentiam vergonha do corpo e algumas deixaram até de sair por se acharam feias.
“Já tive muita vergonha do meu corpo. De um ano para cá, isso foi mudando, foi um processo de aceitação. Já fiz dietas malucas, já ouvi muito ‘nossa como você é linda, mas se emagrecesse…’. Com isso me sentia mal”, contou a universitária Bárbara Treickel, 24.
Ela contou que no último ano passou a entender que beleza não é só corpo. “Posso me sentir linda mesmo não me encaixando naquilo que é esperado pela sociedade.”
De acordo com essas mulheres, o processo de aceitação do próprio corpo em uma sociedade que associa a gordura à falta de saúde ou desleixo não é fácil, mas é possível. Para a universitária Kellen Valladão, esse é um trabalho diário. “Cada mulher é linda do seu jeito, com suas curvas e amor próprio!”
Segundo o sexólogo e terapeuta sexual Ricardo Vieira, a aceitação do corpo está relacionada à autoimagem positiva. “O primeiro passo é se amar e, ao se olhar no espelho, ver a pessoa linda e maravilhosa que reflete nele.”
No entanto, é preciso ficar atento à saúde, explicou a médica especialista em qualidade de vida Jordana Jantorno.
“Corpo sarado não é sinônimo de pessoa saudável. Saúde vai muito além de uma ‘barriga negativa’. Quando uma pessoa se aceita e é feliz com o próprio corpo mesmo não estando no ‘padrão’, traz qualidade de vida e saúde.”
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Relatos de quem se aceita
“Estou me amando”
Com 23 anos, a universitária e modelo Milena Tietz contou que está plena com seu corpo e sempre alto astral.
“Quando era mais magra, não me aceitava tanto, mas hoje estou me amando. Não estou incentivando ninguém a engordar, mas sim a gostar de si mesmo”
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Autoconfiança
A universitária Carleane Junge, 33, tentou fazer várias dietas para ficar magra e, como não via resultado, ficava triste.
“Hoje me aceito com minhas limitações, me divirto com outras qualidades. A beleza não está só num corpo magro, está também na autoconfiança.”
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“Gosto do que vejo”
A empresária e modelo Fabiane Carvalho, 36, contou que passou muitos anos complexada por ser magra demais, mas hoje se acha linda e aceita seu corpo.
“Não me vejo como as pessoas me veem! Olho no espelho e gosto do que vejo! Me acho maravilhosa!”
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Aceitação
A modelo Enza Kroeff, 27, da Ragazzo, contou que está em processo de aceitação do seu corpo.
“Sentia a necessidade de emagrecer para usar as roupas que gosto. Hoje a moda está melhorando e estou gostando cada dia mais do meu corpo.”
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“É mais do que físico”

“O que mais gosto em mim são minhas tatuagens. Por amá-las, amo onde estão. Não me preocupo se próximo ao cavalo-marinho (na cintura) tem estrias, não me incomoda em nada! O corpo é mais do que físico.”
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“Beleza não é só corpo”

“Já tive muita vergonha do meu corpo. Mas entendi que beleza não é só corpo, que ser gorda não é defeito, e que posso me sentir linda mesmo não me encaixando no que é esperado pela sociedade”.
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“Fiz a pessoa parar”

“Fizeram um perfil falso meu em rede social, com uma baleia na foto e o meu nome. Mas, ao em vez de chorar, fui até a delegacia de crimes eletrônicos e denunciei. Fiz a pessoa parar.”
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“Perfeita do meu jeito”

“Minha cabeça tinha sido condicionada a pensar que o meu corpo, minha imagem, era errada! Mas quando vi as fotos me senti a mulher mais linda e poderosa do mundo. Perfeita do meu jeito, sem ter de mudar nada.”
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Superação

“Tive problemas de aceitar meu corpo, mas consegui superar. Quando era mais nova, já fui miss. Comecei a engordar por problemas pessoais e não conseguia aceitar meu corpo. Mas encontrei o mercado plus size e passei a me sentir muito bem comigo mesma.”
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“Restrição alimentar é o ingresso para compulsão”

Quem escuta a voz meiga e vê o sorriso de menina da jornalista e digital influencer Mirian Bottan, 30 anos, nem imagina que há 17 anos ela enfrenta problemas com distúrbios alimentares que quase a fizeram desistir.
Mirian enfrentou a anorexia, bulimia, ortorexia (que é a obsessão por alimentos saudáveis) e até o alcoolismo. Mas conseguiu superar os problemas e, na última semana, comemorou com os mais de 200 mil seguidores de sua rede social um ano sem bulimia.
Nas redes sociais, ela ficou conhecida por fazer o antes e depois ao contrário (em que se mostra gorda no depois) e por desmascarar o truque de famosas para parecerem mais magras nas fotos.
A Tribuna – Quando e por que começou a ter problemas alimentares?
Mirian Bottan – Comecei a vomitar comida com 13 anos. Eu não tinha compulsão alimentar antes, comecei a vomitar porque engordei dois quilinhos nessa idade. Na minha infância tinha participado de concursos de beleza, tinha um contexto familiar comum, em que todas as mulheres da família queriam emagrecer. Então, nesse contexto de adoração pela magreza, eu sentia que não poderia jamais ser feia, que a aparência era superimportante. Isso tudo, em uma sociedade ‘gordofóbica’, em que beleza é igual a magreza.
E quando começou a compulsão?
Depois disso, desenvolvi a compulsão alimentar. Descontava a ansiedade na comida, comia tudo sem controle e depois vomitava. Em menos de um ano vomitava de cinco a seis vezes por dia. Cheguei a 38 kg. Tive de tomar antidepressivo. Melhorei um pouco, mas não me curei. Tinha muito medo de engordar. Dos 16 aos 26 anos eu fugia da comida e tinha compulsão. Entendi que a restrição alimentar é o ingresso para a compulsão. Por voltas dos 20, desenvolvi compulsão por álcool e compras.
E como superou tudo isso?
Em 2016, comecei a enxergar que colocando outras coisas na minha vida o corpo ia perdendo a importância e eu me sentia mais útil. Criei o projeto nas redes sociais e fui mudando junto. Ganhei um pouco de gordura, mas estava em paz porque as compulsões tinham parado.
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Beleza natural valorizada em fotos

Aceitar o próprio corpo e amá-lo do que jeito que é parece uma tarefa difícil para algumas mulheres. No entanto, especialistas afirmam que a autoestima é construída de dentro e reflete do lado de fora na valorização da beleza natural.
E foi isso que a fotógrafa Layrane Lube quis fazer em seu projeto fotográfico, mostrando mulheres que têm o corpo normal, sem ter vergonha das gordurinhas.
“O projeto foi algo construído durante muitos anos. Penso nele como uma forma de empoderar as mulheres, e muitas relatam que se encontram depois que recebem a foto, se veem lindas.”
Layrane disse que até a sua autoestima mudou depois do projeto. “Ouvindo as histórias de cada cliente acabei sendo estimulada a me aceitar e me amar mais.”
Segundo a psicóloga e sexóloga Gina Strozzi, a autoestima é um conceito que se constrói de dentro para fora. “Mas o que acontece aqui fora influencia as potências e os alicerces lá de dentro. Por isso é importante aprender a se olha e se sentir bem consigo mesma.”
Ela ressaltou que nem sempre a magreza é sinônimo de saúde e a gordura é doença. “O conceito de saúde é uma noção de equilíbrio, a questão estética é coadjuvante. O bem-estar e conforto psicológico são indicadores de saúde. Não há como ter conforto tentando se encaixar em um padrão de beleza.”
De acordo com a psicóloga Simone Miranda Rosa, a mulher vem superando muitos preconceitos e limitações sociais, mas a pressão estética criou uma imagem de perfeição que causa sofrimento e doenças.
“O movimento de autoaceitação corporal surge então como um grito de alerta, coerente e em sintonia com o movimento de liberdade e empoderamento feminino”.
Uma dica da psicóloga para começar o processo de aceitação é dançar pelada.
“Dance sem roupa e de frente para o espelho. Faça isso diariamente. Inicialmente você ficará bastante incomodada com seus ‘defeitos’, mas depois de praticar bastante, eles deixarão de ter tanta importância.”
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