Dor de cabeça constante, acompanhada de náusea, às vezes vômitos, e sensibilidade à luz e sons. Esses são alguns dos sintomas da enxaqueca, que é uma doença crônica e, na maioria das vezes, afeta um lado da cabeça.
Fatores como sono, fobias e situações traumáticas da infância podem levar ao aparecimento da doença, segundo médicos.
É uma das dores mais comuns na população em geral, presente entre 10% a 20% dos indivíduos. Por ser uma das dores de cabeça mais incapacitantes, é responsável por uma média de quatro dias de trabalho perdidos por ano nas pessoas acometidas, segundo dados da Sociedade Brasileira de Cefaleia.
Uma pesquisa com 11 mil pessoas que sofrem com a enxaqueca em 31 países, incluindo o Brasil, revelou que, para 72% das pessoas, a doença tem efeito negativo nos relacionamentos amorosos.
Em 56% dos entrevistados pela pesquisa, feita pela Novartis em parceria com a Aliança Europeia para Enxaqueca e Cefaleia, há relatos de que a doença afeta até a vida sexual, além do impacto social.
Entre os pacientes brasileiros, 45% afirmam ter redução de produtividade e 17% alegam faltar ao trabalho devido à doença.
“A enxaqueca interfere em vários quesitos da vida e pode atrapalhar o sexo e o trabalho”, observou o neurologista Mario Peres, da Sociedade Brasileira de Cefaleia. Ele ressalta que a doença pode ser um alerta para o risco de um acidente vascular cerebral (AVC, também conhecido como derrame).
Um dado da pesquisa chama a atenção para sintomas como a depressão. Dos pesquisados, 42% associam enxaqueca à depressão e 20% têm autoestima baixa.
“Crises de enxaqueca e depressão podem estar relacionadas. Ambas podem ser causadas por distúrbios químicos cerebrais similares e também podem se relacionar à genética”, diz o neurologista.
De que forma a enxaqueca pode se manifestar?
Mario Peres – Ela tem várias maneiras de se manifestar. Pode ser constante, diária, que é a enxaqueca crônica, ou pode ser episódica e intermitente, com crises que vão e voltam.
Quais os riscos da enxaqueca para a saúde?
Ela pode aumentar o risco de um derrame cerebral (AVC) ou infarto. Há algumas situações particulares, por exemplo, a mulher que fuma e toma anticoncepcional, e apresenta aura, que são alterações visuais, como pontos luminosos, linhas em zigue-zague: ela tem um risco ainda maior de infartar ou de desenvolver um AVC.
A enxaqueca pode progredir, piorar e causar maiores impactos, o que leva a uma chance de desenvolvimento da depressão, ansiedade e piora na qualidade de vida.
Qual a prevalência da enxaqueca nos brasileiros?
Pelo menos 15% dos adultos sofrem com a doença. A enxaqueca interfere em vários quesitos da vida. Ela pode atrapalhar o sexo e o trabalho, além de afetar comportamentos.
Como o diagnóstico da enxaqueca é feito?
Por meio das suas características, como o local da cabeça que dói (de um lado da cabeça); a intensidade, se é moderada a forte; o tipo de dor; os sintomas acompanhantes, como a náusea, o incômodo com a luz, com o barulho, e a ocorrência das crises de dor.
É possível prevenir?
A enxaqueca tem uma recorrência e vários fatores estão envolvidos. É possível, por meio da regularidade de atividades físicas, manejo do estresse e da tensão, sono regular, uma alimentação correta, reduzir bastante seus sintomas e recorrências. Mas há casos em que é fundamental a medicação.
A dor, em decorrência da doença, pode levar ao afastamento do trabalho?
Ela é uma das principais causas de falta ao trabalho. Há também quem vai ao trabalho e não consegue trabalhar. Muitas vezes, quem sofre com enxaqueca acaba tendo dificuldades com o dia a dia do trabalho, cancelando reuniões, faltando a compromissos e, por vezes, deixando de ter uma oportunidade de promoção.
Na mulher, ela é mais prevalente?
É predominante na mulher, até três vezes mais que no homem, e isso se deve à questão genética e hormonal. A mulher tem mais ansiedade, além da multiplicidade de tarefas.
Crianças podem apresentar a doença?
Cerca de 5% das crianças no País apresentam a doença. Fatores como sono, fobias e situações traumáticas da infância podem levar ao aparecimento da doença, e também não há diferença entre meninos e meninas.
Quais os tratamentos?
Tratamos a enxaqueca de duas formas. O tratamento agudo, com medidas para cortar a crise quando ela já está instalada, e o tratamento preventivo, para evitar que venham as dores. Este último é o mais importante para tratar dores que são recorrentes, que venham três ou mais vezes por mês.
Saiba mais
A doença
A enxaqueca é uma doença crônica, caracterizada por crises de dor de cabeça autolimitadas devido a uma disfunção transitória do cérebro.
Sintomas
Os sintomas são de dor de cabeça geralmente do tipo pulsátil, latejante; tipicamente em um lado da cabeça, acompanhada de náusea; às vezes, vômitos, e sensibilidade à luz e sons.
Tipos
Existem vários tipos de enxaqueca, como a enxaqueca com aura – que são alterações visuais, como pontos luminosos, linhas em zigue-zague, enxaqueca sem aura, enxaqueca crônica, enxaqueca episódica e enxaqueca menstrual.
Impacto
A doença acomete 20% das mulheres e 10% dos homens, mas em determinadas faixas etárias, principalmente na fase mais produtiva, entre 30 e 50 anos, as enxaquecas podem acometer até 30% das mulheres.
Em estudo epidemiológico feito recentemente no Brasil foi detectada a prevalência de 15,2% de enxaqueca no Brasil.
A doença é responsável por uma perda média de quatro dias de trabalho por ano nas pessoas acometidas, sendo uma das principais causas de falta ao trabalho.
Causas e tratamento
Normalmente, a enxaqueca é multifatorial com aspectos genéticos e hormonais na mulher, comportamentais e ambientais.
O tratamento pode ser medicamentoso e não medicamento. Pode ser feito de forma preventiva, para se evitar que venha a dor de cabeça; e aguda, para tratar a crise de cefaleia na hora em que ela aparece.
É possível, por meio da regularidade de atividades físicas, manejo do estresse e da tensão, sono regular, uma alimentação correta, reduzir seus sintomas e recorrências.
Perfil
Mario Fernando Peres
- Graduou-se em Medicina em 1995, pela Faculdade de Medicina da Santa Casa de São Paulo.
- Fez residência médica em Neurologia pela Unifesp, Escola Paulista de Medicina.
- Completou o doutorado em Neurologia em 2000, também pela Unifesp, e fez pós-doutorado na Thomas Jefferson University, no Jefferson Headache Center, localizado nos Estados Unidos.
- É coordenador e fundador do Centro de Cefaleia São Paulo e membro da Sociedade Brasileira de Cefaleia, além de ser pesquisador do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa.
- Escreveu mais de 120 artigos na literatura nacional e internacional, além de capítulos em obras de referência na medicina como o capítulo de cefaleia.
- O neurologista recolocou o tratamento de bloqueio de nervos para a cefaleia em salvas (dor de cabeça que se repete ao longo de um período de tempo) e mostrou que a melatonina poderia ser usada no tratamento da enxaqueca.
