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Entre Prateleiras

Davos: a ficção acabou

Poder e decisão em um mundo sem roteiro

Davos: a ficção acabou
- Jaques Paes
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização


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Se tu acompanhas esta coluna, talvez isso não soe como novidade: venho insistindo há algum tempo que somos bombardeados por narrativas e crises a ponto de, em algum momento, ser preciso dizer chega.

A conveniência tomou o lugar da coerência, sustentada por um discurso que não resiste à segunda pergunta.

Estamos de olhos bem fechados, como no filme de Stanley Kubrick. Fachadas sociais, pactos silenciosos e regras implícitas. A história se mantém viva enquanto o protagonista aceita não ir longe demais, para não romper um acordo que o afasta da verdade. “Valores sem capacidade não bastam”, repetiram representantes de diferentes países ao ler o momento global.

Davos terminou e, como em um déjà-vu, voltamos a revelar as fotos para conferir se o enquadramento estava correto. O encontro funcionou exatamente como foi desenhado para funcionar. As expectativas (ao menos as minhas) falharam. Ainda assim, três pontos chamaram atenção:

1. a IA virou agenda operacional;

2. a energia voltou a ser tratada como segurança, e a dificuldade real da transição ficou explícita;

3. o crescimento voltou a competir com a sustentabilidade.

Disso tiro uma conclusão: projetos públicos ganham relevância, e saber gerenciar projetos, também.

Em Davos, o futuro apareceu como inevitável: mais tecnologia, mais competição e menos ingenuidade regulatória. O presente revelou fragmentação, cadeias tensionadas e Estados mais intervencionistas. Resultado: ninguém assume a conta.

Os discursos foram bem elaborados. Ataque e defesa se entrelaçaram como um tango, sem qualquer pista de por que antagonistas passeavam de mãos dadas. Mas sempre há quem não goste da música, e faz emergir aquela incômoda dissonância.

“A ficção acabou. O ponto de partida em Davos não foi a incerteza, mas o reconhecimento: o mundo está operando a partir de uma narrativa que já não se sustenta”, disseram líderes de algumas potências.

A realidade mostrou os seus limites. O que Davos expôs não foi apenas um mundo mais fragmentado, mas um ambiente em que a escolha de não escolher passou a ter custo.

Erramos o diagnóstico, e isso nos colocou diante de uma ruptura antes velada. “Estamos no meio de uma ruptura, não de uma transição”, disse Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, ao lembrar à audiência que “os sistemas perduram não apenas pela força, mas também pela participação, uma participação que exige atos cotidianos de conformidade com ideias que, em privado, se sabe serem falsas”.

Transições pressupõem continuidade, tempo e ajuste progressivo. Rupturas exigem ação. Davos talvez tenha redefinido parâmetros enquanto ainda tentamos entender o que mudou. Regras que antes garantiam previsibilidade talvez já não existam.

Por fim: Macron parece ter percebido a necessidade de mudar a lente. Não tenho certeza de que tenha acertado a lente, muito menos os óculos.

Continuo o assunto nas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV



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