O assassinato da procuradora-geral da Prefeitura de Santa Teresa, Karyna Rondelli, está entre os crimes que aconteceram no Estado e repercutem até hoje. Um caso intrigante, que, em abril de 2008, movimentou a colônia de italianos em busca de respostas.

Muitos caminhos foram percorridos pela polícia até que colocasse as mãos na esteticista Atma Maria Scotta Erler. Após apresentar muitas versões e incriminar outras pessoas, chegou-se à conclusão de que a vítima, na época com 32 anos, foi asfixiada por vingança.
Era noite do dia 18, uma sexta-feira, quando Karyna aceitou o convite para uma saída que decidiria seu futuro. A procuradora foi asfixiada até a morte pela mulher que se dizia amiga dela.

O desaparecimento de Karyna foi tratado inicialmente como sequestro. O motivo era claro: segundo o delegado José Lopes, responsável pela elucidação do caso que hoje é chefe da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), a vítima tinha boa condição social.
“A Karyna era bem relacionada, não era ameaçada, era trabalhadeira. Solicitei às equipes de inteligência e antissequestro da Polícia Civil trabalhos de interceptação telefônica. Fizemos buscas, perícias, tomamos depoimentos até prendermos a Atma, quatro dias após o sumiço de Karyna”, disse.
Para a polícia, Atma apresentou diversas versões para o crime, misturando sempre realidade com fantasia. Oficialmente, a acusada deu oito versões para o crime.
“Mas, em conversas informais, Atma contou mais de 20 histórias diferentes. O que ela ouvia no noticiário, ela trazia para sua versão do crime”, disse José Lopes.
“A morte dela nos deixou assombrados, muito machucados. Jamais pude imaginar que aconteceria isso com uma jovem cheia de vida. A Karyna era o esteio da mãe, que até hoje não se reestruturou. Nas festas em família, como Natal, réveillon, a falta que ela faz fica muito evidente. A Karyna tinha um perfil de brincalhona, fazia piadas, falava o que sentia” – Luzia Gava, 63 anos, professora aposentada, tia de Karyna
A polícia concluiu que Atma matou Karyna para se vingar de um prejuízo que havia tomado da própria sobrinha.
Segundo a polícia, essa sobrinha era namorada do advogado-sócio de Karyna, George Alexandre Neves, que a havia defendido numa causa trabalhista que ela movia contra Atma, que perdeu.
“Atma matou Karyna para tentar incriminar George e essa sobrinha por crime passional, pois a vítima já teve um envolvimento amoroso com o sócio”, disse José Lopes.
A Tribuna entrou em contato com George Neves, mas ele não quis dar entrevista. A mãe de Karyna, Neurizete Rondelli, também foi procurada, mas não retornou.
Karyna acordou e tentou reagir
Refazendo os passos em buscas de respostas para o crime, entre as conclusões chegadas pela polícia destaca-se: a esteticista Atma Maria Scotta Erler premeditou parcialmente o assassinato e a advogada Karyna Rondelli teve chance de escapar da morte.

“Depois que a matou, a acusada não sabia o que fazer com o corpo. Ela só pensou em matar para incriminar a sobrinha e o advogado. A Atma conseguiu o éter (usado para entorpecer a vítima) com a sobrinha, que é farmacêutica. Ela queria montar tudo para a polícia entender que aquilo tudo seria passional”, revelou o delegado José Lopes, titular da Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investigou o caso.
“Sinto um desespero por não saber o que realmente aconteceu. Nossa condição é de angústia misturada com saudade. A família parou de falar nesse crime, os irmãos dela não querem mais falar nada. A Karyna era uma jovem de boa índole, que estava sempre alegre. Ela era muito ligada à avó paterna, que fala que quer morrer para encontrar a Karyna no céu” – Edson Sedonilo Gava, 66 anos, aposentado, tio de Karyna
“Atma queria mesmo se vingar da sobrinha, que ganhou uma causa trabalhista contra ela. Sem saber onde deixar o corpo, a esteticista passou pela cidade com a Karyna morta”, completou.
Para José Lopes, Karyna chegou a ter uma chance de escapar.
“Não era para a Karyna ter morrido! A começar com o bate-boca que ela teve com a acusada dentro do carro dela. Dentro do Celta aconteceram trocas de ofensas, bate-boca e luta mesmo! Nesse momento, a Atma pegou o éter para apagar a Karyna e apertou o pescoço da vítima com as mãos. Mas a Karyna não tinha morrido! Ela acordou e voltou a reagir, momento em que foi asfixiada de vez. Ao acordar, não era para ter reagido! Era para ter fingido até ter uma oportunidade de correr”, disse.
Lesão no pé escondida
A esteticista Atma Maria Scotta Erler, que foi presa pelo crime, prestou oito depoimentos oficiais à polícia e contou oito versões diferentes, o que chamou atenção durante a investigação.
“Foi durante uma dessas conversas que descobri uma lesão no pé da Atma. O que ela fazia? Quando chegava no DML para fazer exame, ela abaixava a calça jeans, que caía sobre os pés, escondendo a lesão adquirida na briga dela com a Karyna dentro do carro. Por isso não descobriam nada no corpo dela”, revelou.

Até encontrarem o corpo da procuradora, sete dias depois do desaparecimento, a hipótese trabalhada era de sequestro.
“Lembro quando acharam o corpo dela, atrás de uma árvore no mirante do Vale Canaã. Fiquei muito triste. Vi que no vestido preto que estava sendo usado pela Karyna estava faltando uma miçanga. Peça essa que havia sido encontrada em um outro local periciado. A calcinha da Karyna estava rasgada, o que nos levou a suspeitar até que ela havia sido vítima de abuso sexual. Mas não. Levamos a peça ao DML e descobrimos que, ao ser jogado, o corpo enganchou num toco, que rasgou a calcinha”, disse José Lopes.
Polícia refez passos para pegar assassina
Perícia no carro, na casa da acusada, em latões de lixo espalhados pela cidade, em estradas, mato, rua, roupa e até mesmo miçangas. Para os leigos, um mero detalhe de uma bijuteria ou bordado de uma roupa fez toda a diferença para a polícia conseguir unir as peças do quebra-cabeça que levou tanto à motivação quanto à acusada pelo assassinato por asfixia da advogada e procuradora-geral da Prefeitura de Santa Teresa, Karyna Rondelli.

Segundo o delegado José Lopes, foram mais de 30 dias de trabalho até relatar o inquérito e o remeter à Justiça. E, durante esse período, os trabalhos policiais mais pareciam cenas de série policial americana.
“Foram mais de 25 perícias feitas. Estava com dois investigadores, contamos com a ajuda da Polícia Militar da região, da equipe da Divisão Antissequestro, além da ajuda da população”, contou.
Mas qual o viés que a polícia seguiu para chegar à elucidação do crime e à prisão de Atma Maria Scotta Erler? O delegado foi direto: fazendo o passo a passo.
“Começamos do churrasco, onde a Atma teria armado o encontro da Karyna com o médico, que aconteceria na noite do crime. Aquele encontro não passou de um engodo, de uma historinha inventada pela Atma para atrair a Karyna”, afirmou José Lopes.
Aquele encontro não passou de um engodo, de historinha inventada pela Atma para atrair a Karyna” – José Lopes, delegado
Nesse momento, as interceptações telefônicas já estavam sendo feitas e, quando o carro da vítima foi encontrado abandonado, iniciaram os trabalhos periciais.
“Partimos do carro, o Celta grafite. Infelizmente, muita gente havia mexido antes da polícia, o que atrapalhou. Pedi uma perícia geral no veículo, onde só encontramos as digitais da Karyna e da Atma. Mas, em um dos depoimentos, a Atma havia dito que tinha pegado carona com a vítima, o que justificaria as digitais estarem ali”, disse José Lopes.
Atma está no semiaberto

Apesar de ter sido presa em 22 de abril de 2008, quatro dias após o assassinato da advogada Karyna Rondelli, a esteticista Atma Maria Scotta Erler foi levada à júri popular no dia 10 de junho de 2010.
O julgamento aconteceu na Agrotécnica Federal de Santa Teresa, onde a acusada foi condenada a 22 anos de prisão em regime fechado.
Segundo a Secretaria de Estado da Justiça (Sejus), Atma está no sistema prisional desde maio de 2008, no entanto, desde junho de 2015 cumpre pena em regime semiaberto na Penitenciária Feminina de Cariacica, pelo crime de homicídio.
Ainda de acordo com a Sejus, a esteticista não fica em espaço isolado e divide cela com outras detentas. Assim como todas as presas, recebe atendimento médico, psicossocial e jurídico, além de participar de ações de ressocialização, conforme prevê a Lei de Execuções Penal.
Atualmente, o Estado possui 19.209 pessoas presas, sendo 1.135 mulheres e 18.074 homens. Por questões de segurança, a Sejus não informa a população carcerária por unidade prisional.