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Entre Prateleiras

A não leitura

Discursos de extremos amplificam ruídos, simplificam o que exigiria elaboração e polarizam o debate

A não leitura
- Jaques Paes
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização

Será que todas as desigualdades são iguais? Penso que não. Mas certas narrativas nos empurram justamente para essa falsa equivalência.

Duas semanas atrás, aqui no Entre Prateleiras, escrevi sobre desigualdade a partir do desafio de ser mulher em um ambiente predominantemente masculinizado. Depois da publicação, leitores me enviaram vídeos, posts, argumentos e contrapontos.

Dois, em especial, prenderam minha atenção pelo alcance, por quem os enunciava e pela estrutura do argumento.

Um deles dizia que o feminismo esmagaria o próprio feminismo caso as mulheres feministas não aumentassem sua taxa de reprodução, como se ideias e ideologias fossem herdadas geneticamente.

O outro defendia um deslocamento linguístico, trocando “mulher é agredida” por “um homem agrediu”, como se essa troca, por si, produzisse transformação social.

Os dois discursos compartilham algo relevante: grande alcance, reivindicação de autoridade e viés de confirmação explícito, tudo isso abrigado sob o arco mais amplo da desigualdade social.

A desigualdade que persiste no cotidiano já não depende apenas de coerção explícita. Ela também se sustenta na forma como pensamos, decidimos e interpretamos aquilo que chamamos de escolha.

Nesse tipo de construção, a forma passa a importar mais do que o próprio conteúdo. E é aí que surge a necessidade de reivindicar autoridade.

Toda sociedade se organiza em meio à incerteza, à ambivalência e à complexidade. Reduzi-la a narrativas lineares não simplifica o problema. O deforma.

Quando esse tipo de leitura ganha escala, deixa de ser apenas interpretação e passa a orientar como temas sensíveis são compreendidos, absorvidos e reproduzidos socialmente.

Indivíduos passam a agir em desacordo com aquilo que, isoladamente, sustentariam. Nesse ambiente, narrativas simplificadas deixam de ser apenas inadequadas. Tornam-se disfuncionais.

Deslocar a ênfase linguística da agredida para o agressor não basta. Sustentar posicionamentos ideológicos a partir de interpretações apressadas ou distorcidas também não. Deslocar a carga emocional não amplia a compreensão.

Discursos de extremos amplificam ruídos, simplificam o que exigiria elaboração, polarizam o debate, enfraquecem causas legítimas e estreitam o espaço de discussão propositiva. Ao tentar impor uma lição de moral e prescrever comportamentos, tornam-se caricatos.

Se há alguma transformação possível, ela passa pela forma como percepções coletivas são moldadas no ambiente político, econômico e social. Não existe desigualdade social isolada. E ética não se resolve por lição de moral.

Leitura fora de contexto, ao ganhar escala, deixa de ser leitura. Passa a organizar o que muitos chamam de realidade, mas que, no final do dia, não passa da tão famigerada desinformação.

Vídeos, autores, feminismo ou linguística são periféricos aqui. Importa o que esse tipo de construção evidencia, constrói, destrói, aproxima e afasta.

O mesmo cimento que faz a ponte também ergue o muro.

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