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Entre Prateleiras

A nova natureza do risco

Norma amplia foco para riscos psicossociais e aproxima Segurança do Trabalho de RH, Jurídico e alta administração

A nova natureza do risco
- Jaques Paes
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Jaques Paes

Executivo, mestre em gestão empresarial, consultor, mentor de profissionais em transição de carreiras e professor do MBA de ESG e Sustentabilidade da FGV. Autor da coluna Entre Prateleiras, publicada no jornal A Tribuna e disponível também no portal Tribuna Online.

Última atualização


A discussão sobre a revisão da NR-1 começou pela saúde mental. Mas a norma altera algo mais profundo: a própria forma como as empresas compreendem o risco ocupacional. Poucas fronteiras permaneceram tão estáveis quanto a separação entre gestão e segurança do trabalho. A revisão da NR-1 altera essa lógica.

Até pouco tempo, Segurança do Trabalho concentrava sua atenção em agentes físicos, químicos, biológicos e mecânicos. Ruído, calor, máquinas, produtos perigosos. Eram riscos que podiam ser medidos por instrumentos e comparados com parâmetros técnicos relativamente objetivos.

Pressão por metas, organização do trabalho, comunicação, liderança, conflitos, autonomia e carga de trabalho entram no conjunto dos fatores capazes de influenciar a saúde ocupacional. Não significa que toda meta seja abusiva, nem que toda cobrança represente um risco. Significa que o desenho do trabalho passa a fazer parte da análise.

Questões antes restritas ao RH e às áreas de gestão deixam de ser apenas decisões organizacionais. Dimensionamento de equipes, jornadas, reestruturações, distribuição de responsabilidades e modelos de liderança passam a dialogar com Segurança do Trabalho, Compliance, Jurídico, Auditoria e Alta Administração.

A consequência é uma aproximação entre áreas que, em muitas organizações, ainda operam de forma relativamente independente. Coordená-las passa a ser um problema de governança.

É relativamente simples medir níveis de ruído ou concentração de um agente químico. Muito mais difícil é avaliar fatores cuja própria percepção varia entre indivíduos.

Essa diferença ajuda a explicar por que a implementação da norma tende a ser mais complexa do que a de outras NRs.

Medir um ambiente não é compreender uma organização.

A revisão da NR-1 aproxima essas duas tarefas.

O processo de avaliação dos riscos deixa de se limitar às condições materiais do ambiente e incorpora também a organização do trabalho e seus efeitos sobre as pessoas. É uma mudança silenciosa, mas suficientemente profunda para integrar segurança ocupacional, psicologia organizacional e governança.

O Ministério do Trabalho optou por não estabelecer uma metodologia única para avaliação dos fatores psicossociais. A decisão oferece flexibilidade às organizações, mas também cria espaço para interpretações distintas entre empresas, consultorias e órgãos fiscalizadores. A consistência dessas interpretações será determinante para a segurança jurídica da própria regulamentação.

Reduzir a revisão da NR-1 a um debate sobre custos ou passivos trabalhistas parece insuficiente.

Atualizar documentos provavelmente será a parte mais simples da implementação. Compreender por que determinadas estruturas produzem retrabalho, conflitos, absenteísmo, rotatividade, falhas de comunicação e perda de produtividade exige mais do que novos procedimentos: exige compreender a forma como a organização decide trabalhar.

O maior desafio da NR-1 provavelmente não será identificar fatores psicossociais. Será reconhecer que parte dos riscos ocupacionais começa muito antes do ambiente de trabalho. Começa na forma como a própria organização decide trabalhar.

Continuo nas minhas redes: Instagram: @jaquespaes; LinkedIn: in/jaquespaes

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