Vítima do golpe do amor na internet, uma aposentada de 68 anos precisou vender o apartamento em que morava, avaliado em R$ 160 mil, para pagar dívidas. Agora, ela mora de aluguel em uma quitinete.
Divorciada, ela conheceu um homem que se dizia militar americano através do Facebook. Até hoje, a mulher não conseguiu quitar os quatro empréstimos que fez para ajudar o novo “amigo”. O homem, segundo ela, afirmou que estava servindo na guerra no Iraque.
Em uma das conversas, ele teria relatado que precisava enviar uma caixa com dinheiro e joias para ela, que seriam frutos de herança familiar. “Ele disse que viria ao Brasil e que poderia ter um relacionamento amoroso comigo”, contou.
O relacionamento aconteceu entre dezembro de 2016 e março de 2017. O falso militar alegou que não tinha família, confiava na idosa para receber o pacote, mas precisaria que ela desembolsasse R$ 2 mil para liberar a encomenda no Aeroporto de Guarulhos, em São Paulo.
“Ele me deu a conta de outro homem, que também seria americano, para que eu depositasse. A princípio, eram R$ 2 mil, mas ele foi pedindo mais. Peguei empréstimos com bancos, agiotas. No final, estava devendo R$ 80 mil. Vendi meu apartamento pela metade do valor para pagar as dívidas”, relatou.
O delegado Brenno Andrade, titular da Delegacia Especializada de Repressão aos Crimes Cibernéticos, explicou que esse caso foi registrado no Espírito Santo e, depois, passado para a Polícia Civil de São Paulo, estado onde o falso militar teria investido o dinheiro repassado pela idosa.
Trinta casos do golpe do amor são registrados por ano no Espírito Santo, segundo o delegado. “Porém, uma pesquisa informou que, pelo menos, 50% de vítimas desses crimes não fazem ocorrência”, disse.
Procurada, a Polícia Civil de São Paulo não se posicionou sobre o caso até o fechamento desta edição.
“Eu perdi tudo. Hoje moro em um bairro simples”, diz aposentada
A Tribuna – Como a senhora conheceu esse homem?
Aposentada – Pelo Facebook. Ele pediu para adicionar e começamos a conversar. Ficamos amigos. Depois de um tempo, ele disse que tinha algumas coisas para guardar e não tinha onde deixar, porque os pais tinham morrido e ele não era casado.
O que ele pediu para guardar?
Dinheiro e joias. Disse que tinha enviado o pacote para São Paulo e que um conhecido dele, também americano, iria retirar o pacote no Aeroporto de Guarulhos e enviar para mim.
Mandei meu endereço e tudo. Na primeira vez, ele disse que era para depositar R$ 2 mil para que a Receita Federal liberasse.
O que ele prometeu?
Que eu iria receber parte desses valores do pacote, que iria mudar de vida e, quem sabe, até começar um relacionamento comigo.
A família da senhora sabia que estava conversando com esse homem?
Não. Fiquei com vergonha e com medo de ser repreendida pelos meus filhos. Mas, se tivesse contado, talvez não teria caído no golpe.
A senhora não desconfiou das motivações de um homem que estaria no Iraque, americano, entrando em contato com alguém, sem nenhum vínculo, no Brasil?
Não desconfiei de nada. Nem passou pela minha cabeça que poderia ser um golpe. Eu não tinha conhecimento sobre golpe na internet. Por isso que eu caí.
Como percebeu que tinha sido vítima de um golpe?
Foi quando eu liguei para minha nora, meses depois, muito angustiada, porque não sabia de onde tirar dinheiro para mandar. Ela perguntou o que estava acontecendo e eu contei.
Na mesma hora, ela disse que eu tinha caído em um golpe. Aí, fui à delegacia.
A senhora sofreu ameaças?
Sim. Ele e o comparsa tinham o meu endereço. Disseram que poderiam fazer qualquer coisa comigo e com minha família.
Como está a sua situação financeira hoje em dia?
Eu perdi tudo. Vendi meu apartamento para pagar as dívidas. Hoje moro em uma quitinete em um bairro simples, não tenho nem mobília. Até a minha aposentadoria vem com mil reais a menos, porque ainda estou pagando o empréstimo consignado.
A senhora tem esperança de conseguir o dinheiro de volta?
Não. Só se for por um milagre de Deus.
