No primeiro dia de um isolamento inédito imposto para desacelerar a propagação do coronavírus pela Itália, que vive a pior epidemia do continente europeu, o país acordou com ruas desertas, lojas e restaurantes fechados, e com centenas de voos cancelados ontem. Diante do cenário, capixabas que moram lá relatam a rotina de medo instalado.
Atuando no futebol italiano há 12 anos, o jogador capixaba Adriano Louzada, de 26 anos, vive situação bem diferente do que está acostumado na Europa. Impedido de sair de casa por causa da quarentena em todo o território nacional e com as atividades do futebol suspensas por causa do surto na Itália, o atacante sente medo e está preocupado com as incertezas envolvendo a sua carreira no país europeu.

“Depois de tanto tempo aqui é uma situação bem diferente, bem estranha que estou vivendo. Traz um sentimento de medo porque pouco sabemos desse vírus, que veio do nada e se espalhou”.
“A Itália é muito exemplar quanto à saúde, não faltam hospitais, leitos, médicos. Mas o medo é de não saber quando vai acabar, quando vai diminuir, ou se vai acabar ou se vai diminuir”.
Quem desembarcou ontem no Aeroporto de Vitória foi o capixaba Jean Pierre Júnior, de 29 anos, acompanhado da namorada mineira. Ele, que é gerente de uma casa de show em Milão, decidiu passar um período no Estado depois que o local onde trabalha (uma realidade em solo italiano) teve que fechar por determinação do governo italiano para evitar proliferação do vírus.
Ao pisar em terras capixabas, a sensação foi de alívio. “A situação de uns dias para cá na Itália é de medo. As lojas estão fechadas, aeroporto vazio e, o pior, não passamos por nenhum controle nos aeroportos sobre sintomas até chegar aqui. Não estamos com sintomas, mas intensificamos os cuidados, usando álcool em gel e lavando ainda mais as mãos”.
O Itamaraty informou que os Consulados brasileiros em Roma e Milão permanecem em contato com a comunidade brasileira local e seguem à disposição dos cidadãos brasileiros que necessitem de assistência consular, observados os limites estabelecidos pela legislação de cada país e os tratados internacionais sobre relações consulares vigentes.
“Pessoas se olham desconfiadas”
Para ir e vir na província de Mântua, na região da Lombardia, na Itália, a capixaba Christine Magnago, 34 anos, precisa de autorização. Pelo caminho, barricadas policiais, ruas vazias e olhares desconfiados. Com a epidemia do coronavírus no país, a vida mudou completamente.
A TRIBUNA – Com o isolamento total, como está a vida?
CHRISTINE MAGNAGO – Preciso ir para a rua trabalhar. Mas, para isso, tenho que ter uma autorização que mostra os percursos que faço e a justificativa para circular. Passo por pontos de bloqueio policiais para conseguir andar. Eles estão fazendo uma fiscalização forte para ver a real necessidade daquele cidadão de circular. Ontem mesmo me pararam na rua. Vivemos à espera de mais medidas restritivas no país.
E como se protege?
O ideal seriam máscaras com filtro, mas acabaram. Não achamos nem na internet para comprar. Além disso, o preço duplicou. As mãos são higienizadas o tempo todo e uso luva cirúrgica também.
Qual o impacto das ruas vazias?
Algumas lojas e bares tinham autorização para ficar abertos até 18 horas, mas não estão nem mais abrindo por precaução. É um clima tenso nas ruas. As pessoas, quando se encontram, ficam se olhando desconfiadas, umas com medo das outras. Está muito estranho viver por aqui.
Como comprar mantimentos?
Aqui, não era comum os supermercados e farmácias fazerem entregas. Mas, agora, estão deixando nas casas. O governo pede que evitemos de ir às ruas ao máximo. Cinemas e shoppings, por exemplo, nem pensar. Todos vazios.
E a escola do seu filho?
Escolas não reabriram depois do Carnaval. Meu filho estuda on-line, com as professoras mandando atividades por um aplicativo. As crianças precisam ficar em casa. Tem até uma praça na frente da minha casa, mas, mesmo vazia, evito passear por lá. Quando ele vê pessoas de máscara, por exemplo, fica assustado, impressionado. Então evito sair com ele.
Tem medo de morrer?
Estou tranquila porque não faço parte da faixa de risco, mas é tudo meio aterrorizante.
“Parece uma cidade fantasma”

Segundo ela, supermercados e farmácias funcionam, mas falta álcool e há, em todo lugar, placas avisando para as pessoas manterem um metro de distância umas das outras.
Os dois só saem de casa quando realmente é necessário, sempre com máscaras. Bianca conta que trabalha de casa, mas o marido faz ‘bicos’ e, por conta do surto de coronavírus na Itália, ele está há duas semanas sem trabalhar.
