Encontrar palavras para descrever o sentimento pelos netos é um desafio, mas o carinho e a dedicação provam que o amor de avós é diferente e especial. Eles buscam ensinar aos filhos de seus filhos lições de vida através de momentos especiais que vivem juntos.
Para celebrar esse “amor diferente”, neste domingo (26) é comemorado no Brasil e em Portugal o Dia dos Avós. A data faz referência ao Dia de Santa Ana e São Joaquim, pais de Maria e avós de Jesus Cristo.
Um bolo preparado com afeto, a camisa do time de futebol do coração, jogos, passeios, as histórias dos antepassados e, até mesmo, um “puxão de orelha” transmitem valores que avô e avó deixam de legado para as próximas gerações, segundo especialistas.
São esses momentos que ficam marcados nos pequenos e os seguem até se tornarem adultos.
Com seis netos, a assistente social Mônica Ribeiro Nascimento, de 49 anos, e o mecânico de chave Marcos Antônio Cândido do Nascimento, 53, esperam deixar o amor como principal ensinamento para as crianças.
Para eles, esse sentimento é primordial, tanto que dois dos seus netos são “de coração”. João Pedro Matuzze, 4 anos, é filho da ex-nora. O filho do casal morreu, mas o vínculo com a ex-nora permaneceu.
Mônica e Marcos também têm uma “neta do coração”, que é enteada de outra filha.
“Amamos os seis igualmente. Ser avó é sentir amor pelas crianças, independente de ser de sangue”, afirma Mônica. “Como eu trabalhava muito na época que tive meus filhos, não consegui dar a atenção que queria a eles. Como hoje trabalho menos, tenho mais oportunidade de estar com meus netos”, salienta.
O papel dos avós é imprescindível na formação pessoal e na educação dos netos e a participação deles contribui para o bem-estar dos herdeiros.
A pediatra Nathália Miranda observa, porém, que muitos ainda acreditam que o envolvimento dos avós pode atrapalhar na formação das crianças e deixá-las mimadas.
“Mas, na maioria das vezes, as avós passam muita segurança para a família e ajudam a mãe a ter confiança de que está agindo corretamente. É importante ter a avó como aliada, pois elas sempre querem o bem dos netos”.
“Neto é um presente”
A dona de casa Deusa Chagas, avó de Mirela, de 2 anos, conta que o vínculo com a neta foi fortalecido logo nos primeiros meses de vida da pequena.
Deusa relata que, quando a menina tinha três meses, a mãe dela se acidentou gravemente. Com isso, a avó precisou ajudar a cuidar da criança.
Entre brincadeiras e videochamadas, o vínculo se intensificou e o aprendizado é maior a cada dia, afirma.
“Neto é um presente que recebemos depois que o filho sai de casa”, afirma ela, que também é avó do Levi, de apenas 1 mês de vida.
Aprendizado e honestidade
“O maior aprendizado que recebi da minha avó foi sobre honestidade. Aprendi muito com ela”, afirma a professora Lorrayne Correa, 29.
Ela se considera sortuda por ter a aposentada Delfina Correa, de 72 anos, como avó. “Foi ela que assumiu o maior papel de me educar”, disse, relatando que foi criada pela avó desde que nasceu.
“Ela me incentiva em tudo o que eu faço, desde a escola até a faculdade, além dos meus outros projetos”, acrescenta Lorrayne.
A avó participa até dos vídeos que a neta costuma fazer para as redes sociais com dicas de culinária e jardinagem.
Vínculo faz bem para a saúde
A maturidade e o ritmo de vida desacelerado que surgem com o passar dos anos favorecem o fortalecimento do vínculo entre avós e netos. Segundo a ciência, esse relacionamento é benéfico para a saúde.
Uma pesquisa feita pela Universidade de Boston (EUA), em 2016, analisou famílias entre 1985 e 2004 e demonstrou que a proximidade emocional entre netos e avós protege ambos da depressão e de outros transtornos mentais.
Outro estudo publicado pela Sociedade Gerontológica da América concluiu que, para os avós, receber o apoio funcional sem poder retribuir aumenta sinais depressivos.
Se durante a infância dos filhos era necessário passar longos períodos do dia trabalhando, o estilo de vida costuma ser bem diferente quando chegam os netos.
É nesse momento da vida que, geralmente, as pessoas passam a ter mais tempo para se dedicar à família e possuem melhor entendimento de como lidar com as crianças. O vínculo pode ser tão forte a ponto de impactar diretamente a saúde dos parentes.
O bem-estar do neto Felipe Andrade, de 7 anos, afetou a saúde da dona de casa Maria Madalena Cândido, 58. Ela e o marido, o aposentado Gildemar Rocha, 58, têm uma forte conexão com o menino.
“Uma vez, ele estava doente e ficou internado. A minha pressão subiu e precisei ir para o hospital também. Quando eu soube que ele não ia mais ficar internado, a minha pressão estabilizou e saímos juntos do hospital”, recorda a avó.
Maria explica que há particularidades que diferenciam amor de mãe do amor de avó.
“Quando vem o neto, estamos mais maduros. Com isso, erros que cometemos como mãe, evitamos repetir como avó. A convivência acaba sendo maior, então queremos compensar o tempo que não tivemos com os filhos”, disse ela.
A convivência também faz com que os interesses sejam similares. “Temos juntos uma rotina de muita cumplicidade e compartilhamos muitas coisas em comum, como: somos canhotos, gostamos de aviação e, o mais importante, flamenguistas”, diz o avô.
“Nossas desavenças ocorrem somente quando estamos na frente da TV, porque ele quer ver desenho animado; e eu, futebol. Venço a disputa quando ofereço celular para ele brincar”, conta, sorrindo.
Socialização
A interação entre as gerações faz parte da socialização e promove a produtividade dos avós, de acordo com a geriatra Waleska Binda Wruck. Esses dois aspectos são fundamentais para preservar a saúde emocional, cognitiva e funcional dos idosos.
Já a ociosidade pode fazer com que eles se sintam desocupados, o que abala diretamente o emocional. Segundo Waleska, a falta de estímulos interfere nas habilidades funcionais e cognitivas.
“O idoso que vive sozinho e não se comunica com outras pessoas tem maior chance de ficar deprimido e ter problemas cognitivos”, alerta. “Por isso, o importante da interação entre as gerações é promover a socialização”, destaca.
“Quero ensinar amor, respeito e ética”
A vendedora Eneida Ribeiro, 51, e o aposentado Lourival Ribeiro, 63, só têm uma neta, a Jasmin, de 7 anos, que mora com eles desde que nasceu.
“Como o avô tem mais tempo, ele é mais presente e cuida dela com amor, zelo e dedicação. Ela disse que, quando ficarmos velhos, ela vai cuidar de nós, como cuidamos dela”, conta Eneida.
É esse sentimento e outros valores que os avós esperam deixar de aprendizado para a pequena. “Eu quero ensinar amor a Deus, à família e ao próximo; honestidade, trabalho, respeito, ética”, lista a avó.




