Em meio ao período mais crítico da pandemia do novo coronavírus (Covid-19), em que o Estado enfrenta recorde de casos e mortes diárias, o relato da mulher de um médico que atuava na linha de frente de combate à doença serve de reflexão para a atitude da população diante do momento atual.

O marido de Giovana, Marcos Mantelmacher, tinha 46 anos e deixou, além dela, dois filhos: um de 7 anos de idade e outro de 15.
Mantelmacher testou positivo para a Covid-19 no dia 19 de novembro, após ter diarreia por três dias seguidos e precisar ser internado.
Depois de dar entrada na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), foram 27 dias até perder a batalha para a doença, no início do mês.
Para Giovana, Marcos foi herói, mas a tristeza dela vai além da perda do companheiro de vida, com quem passou 20 anos ao lado.
A enfermeira se entristece todas as vezes que vê as pessoas negligenciando a doença na rua.
“Tenho visto que estão ignorando a seriedade do vírus. Das poucas vezes que saio para ir ao mercado, vejo pessoas sem máscara, uma quantidade muito grande de pessoas na rua sem estarem se cuidando”, observou.
“Até num domingo de sol, se passar pela praia, a areia está lotada, como se não estivéssemos passando por uma pandemia. Isso me entristece muito, pois não estão dando a real importância para a vida”, desabafou.
Segundo Giovana, a rotina do marido era cansativa e difícil, pois precisava lidar diariamente com pacientes doentes à beira da morte. Ao chegar em casa, os cuidados eram redobrados, para evitar a contaminação da família.
“Antes de apresentar os sintomas e ser internado, ele comentava que era muito difícil ver tantas pessoas morrendo em tão pouco tempo. Ele também trazia os contaminados para os hospitais e, algumas vezes, ficava sabendo que o paciente que ele havia acabado de ver na ambulância, não havia resistido e morrido. Era uma rotina desgastante e difícil de enfrentar”, revelou Giovana.
“Ele era muito cuidadoso”, Giovana Borin, enfermeira
A Tribuna – Como foi desde que o seu marido começou a sentir os sintomas?
Giovana Borin – Ele começou a sentir diarreia e ficou assim por três dias. Depois, fez tomografia e outros exames. Foi constatado que o pulmão dele estava comprometido e o exame confirmou que era Covid. Ele ficou internado por 27 dias até que não resistiu mais.

Giovana Borin – Sempre dizia que era difícil. Ele levava pacientes para os hospitais e depois ficava sabendo que eles haviam morrido. Era muito triste. A rotina era desgastante.
A Tribuna – Como era o cuidado dele quando chegava em casa?
Giovana Borin – Ele era muito cuidadoso. Não usava o elevador do prédio, sempre subia os sete andares pela escada, para evitar contaminar os outros. Entrava pela porta da cozinha e colocava as roupas em sacolas e seguia direto para o banho antes de nos ver.
A Tribuna – Ele possuía alguma comorbidade (outra doença)?
Giovana Borin – Ele não bebia, nem fumava. O que pode ter comprometido a imunidade dele é que, 25 dias antes de apresentar os sintomas, ele passou por uma cirurgia de apendicite.
O meu marido morreu salvando vidas. Profissionais de Saúde estão morrendo, enquanto muitas pessoas continuam não dando a real importância para o que essa pandemia está causando para a vida de muitas pessoas.