Após morar no próprio barco por mais de 25 anos, o Pirata da Aldeia de Perocão ganhou uma nova casa. A residência de dois cômodos é flutuante e fica ancorada ao lado de seu inseparável barco, o Ulisses.
Pirata é o apelido do pescador Manoel Estevão Portela, de 59 anos, que vive em Guarapari desde 1992.
Até dois meses atrás, era no barco que ele dormia, almoçava, jantava, tomava banho e descansava. Agora, com o presente que recebeu de um amigo de Vitória, vai poder descansar em um espaço um pouco maior e no balançar das ondas, na Aldeia de Perocão.
“Foi um presente de Deus. Um dia encontrei com um amigo antigo no mar. Ele sabia que eu morava no barco e conhece bem minha vida. Ele parou para comprar camarão na minha mão, falou comigo que o sonho dele era ter uma casa flutuante, e perguntou se eu queria uma. Eu respondi que sim. Ele mandou fazer para mim”, contou muito orgulhoso.
O módulo flutuante é feito de aço inox, compensado naval e, segundo Pirata, todo o material é de primeira linha para não estragar no mar.
Sobre a identidade do amigo que lhe deu o presente, Pirata disse que não pode revelar. “Todos os dias eu rezo por ele, para que Deus ilumine os caminhos dele, e de todos que semeiam o bem. Ele prefere não aparecer”, afirmou Pirata.
Depois de ganhar a casa, o pescador já recebeu de presente o fogão, a caixa d’água e vários outros utensílios domésticos. E um morador da Aldeia de Perocão disponibilizou água e energia para a residência. “Quero arrumar tudo. Colocar a caixa d’água, o fogão e devagar vou ajeitando as coisas”.
De acordo com o pescador, falta agora somente ajustar o barco. “Estou é precisando de um motor do barco. Meu motor está na hora de aposentar. É igual uma pessoa, uma hora cansa. Esse motor aqui tem quase 30 anos. E assim vivo minha vida na simplicidade. Aqui é o melhor lugar do mundo. A paz está aqui. Ninguém mexe em nada de ninguém. E daqui eu só saio quando eu morrer”, completou.
Pescador morou 25 anos em barco

Ele já foi ajudante de pedreiro e mecânico de motor de barco, mas sua paixão sempre foi a pescaria, por causa da liberdade.
“Aqui eu trabalho quando quero. Não tenho a responsabilidade de ‘bater cartão’. Comecei a namorar e fiquei alguns dias sem ir para o mar. Se fosse uma empresa, perderia o emprego”, brinca ele.
Durante os 25 anos morando no barco, Pirata revela que prefere pescar sozinho, já que alguns ajudantes não têm o mesmo compromisso que ele. “Eu vou para o mar para pescar. Gosto de pescar sozinho. Eu e Deus. Não é uma brincadeira, é compromisso. Então o foco é esse e depois da pescaria é que poderemos nos divertir”, completa.
Apesar da nova casa, o barco continua sendo sua morada nas pescarias. Ele gosta de pescar todos os dias. Mas quando a pescaria é boa, ele não volta no mesmo dia, e o escritório de trabalho vira dormitório. No barco, o armário é único e guarda de alimentos a roupas.
Vida simples e feliz no mar
Com o seu jeito simples, Pirata Portela afirma que é muito feliz com o seu estilo de vida. “Dinheiro é bom, mas não é tudo. A paz interior faz com que sejamos pessoas melhores e isso nos faz feliz. Sou muito feliz. A felicidade está nas coisas simples.”
Horário de acordar no barco é sempre cedo, antes mesmo do nascer do sol. A conversa com os amigos, em vez de ser na janela, é da proa do barco. Como muitos pescadores chegam cedo para preparar as linhas, é ali que eles batem um papo sobre o dia a dia e as boas pescarias que fizeram e poderão fazer.
“Só de acordar cedo e fazer o que a gente gosta é gratificante”, afirmou. Em dias normais, Pirata diz que sai para pescar antes mesmo do sol nascer. Quando a pescaria é rápida, às 10 horas ele está de volta com alguns quilos de peroá, camarão, pargo ou sarda cavala.
Quando a pescaria é melhor, ele dorme próximo às ilhas e volta no dia seguinte. “Às vezes a gente tem a sorte de cair em alguma boa pescaria e passa o dia pescando. Não quero outra coisa para minha vida. Esse é o meu mundo”, salienta.

