“Durante a primeira audiência pública realizada para discutir a construção do contorno, a comunidade votou contra a obra. Predominou o interesse dos comerciantes em detrimento da qualidade de vida a ser conquistada agora”
Se São Pedro ajudar no céu e os homens não atrapalharem na terra, até março próximo o Contorno Rodoviário de Iconha deverá ser inaugurado. Vai reduzir em uma hora, em média, a viagem para quem percorre a BR 101 Sul. Nesta época de festas e férias, com tráfego intenso de veranistas, atravessar a pequena cidade virou um estragar prazer enorme. A Concessionária Eco 101, que trabalha a obra, atribui às chuvas intensas de outubro e novembro a não-liberação do anel de oito quilômetros prevista para dezembro passado. Houve ainda troca de diretoria na concessionária e problemas de desapropriação de áreas travando o cronograma. Mas “agora vai”, assegura a Eco.
Será o fim de uma romaria diária de veículos atravessando o perímetro urbano de uma cidade que cresceu economicamente à sombra e sob o barulho dos carros, carretas e ônibus, tanto que virou a “cidade dos caminhoneiros”. Por isso mesmo, não foi fácil convencer o comércio satélite do tráfego (oficinas, lanchonetes, postos de gasolina, lojas etc.) da necessidade de remanejar o trânsito. Para ter ideia, durante a primeira audiência pública realizada para discutir a construção do contorno, a comunidade votou contra a obra. Predominou o interesse dos comerciantes em detrimento da qualidade de vida a ser conquistada agora.
Naquela ocasião, o empresário rodoviário e então deputado federal Camilo Cola presidia a Comissão de Transportes da Câmara Federal e foi indagado por um repórter sobre a rejeição ao contorno manifestada na audiência pública nitidamente manobrada. “A comunidade é soberana”, justificou Cola, no que foi surpreendido por outra pergunta: “Se o senhor morasse como sua família em Iconha, seria a favor ou contra a obra?”. Cauteloso, Cola tratou de pegar uma variante: “Bem, acho que precisamos discutir mais este assunto”.
Dali em diante a coisa foi mudando de figura, novas audiências públicas foram realizadas, a comunidade foi se convencendo das vantagens, como a maior segurança, redução da poluição atmosférica e sonora, possibilidade de reurbanizar com paisagismo o atual traçado rodoviário. Paralelamente, os comerciantes perceberam que bastava migrar para o anel rodoviário, no que gerou intensa especulação imobiliária ao longo do traçado do anel. Faz parte.
Até agora, a sensação que se tem é que a própria comunidade ainda não se deu conta dos benefícios que se aproximam, como a possibilidade de mexer no entorno da pista antiga, de instalar calçadões, parques e outras áreas de lazer, além de arejar o próprio comércio. Quanto ao viajante que quiser parar em Iconha, para um lanche ou outro tipo de consumo, poderá encontrar uma cidade bem mais acolhedora, tranquila e sem congestionamento. Vai depender, claro, das lideranças locais.
Contornos são necessários, na arte, no ir e vir da vida. Igualmente são complexos, dispendiosos e cheios de desvios em vários sentidos. Quanto tempo durou e quanto custou o Contorno Rodoviário da Grande Vitória, ligando Cariacica ao município da Serra? Quanto irá custar a duplicação de toda BR 101 Sul, e quanto tempo ainda levará? Ninguém tem ideia precisa. A estrada da vida é assim, repleta de imprevistos, curvas e contornos, quase uma mulher fatal.