De tanto incentivar os alunos que fazem pré-vestibular a ingressarem em uma faculdade, o porteiro de uma escola particular de Cariacica acabou interiorizando as próprias palavras e despertou nele um desejo que estava adormecido: fazer um curso superior e se tornar professor.
Etevaldo Teófilo Aprígio, de 50 anos, decidiu que tinha chegado a sua vez. Ele se dedicou e estudou sozinho em casa para o Exame Nacional do Ensino Médio (Enem). O resultado foi a aprovação para o curso de História da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes).
“Tinha aluno que chegava triste ou cansado e eu sempre falava que ia ficar tudo bem. Aí eu pensei: se estou incentivando as pessoas, preciso dizer para mim mesmo que eu também vou conseguir”, afirmou Etevaldo, que trabalha há 19 anos na portaria do Darwin.
Convocado para o segundo semestre do ano letivo, ele teve a primeira aula na última quarta-feira.
“A recepção dos veteranos foi muito calorosa, me senti muito bem recebido”, contou, animado. Ele disse que passou na terceira tentativa e que vai estudar à noite.
O resultado saiu 12 dias antes do aniversário dele, celebrado no dia 24 de julho. “Fiquei muito feliz, foi o meu presente. Até comprei um bolo para comemorar”, contou.
Até 2002, Etevaldo disse que tinha apenas o diploma do ensino fundamental, mas no mesmo ano voltou a estudar por meio da Educação de Jovens e Adultos (EJA) para concluir o ensino médio.
“Nessa época, eu imaginava que a graduação estava distante da minha realidade”, afirmou o morador de Santa Bárbara, Cariacica.
No entanto, o desejo de se formar falou mais alto. “Criei o hábito de estudar sozinho no EJA. Eu lia livros que conseguia emprestado e assistia a aulas na internet à noite, após o trabalho”, explicou.
Ele contou que também chegou a tirar dúvidas sobre Matemática e Redação com os alunos e os professores do colégio onde trabalha.
Nesse meio tempo, a sua mulher, Aisle Aprígio, 43, estudava com ele e passou no curso de Pedagogia da Ufes. Atualmente, ela está cursando o terceiro período.
“A realização será completa quando nós dois formarmos, pois esse sonho é compartilhado”.
Casados há 16 anos, os dois querem ser um exemplo para o filho Jonathan, de 14 anos, que já sonha em ser biólogo. “A gente mostra para ele que é preciso se esforçar para atingir um objetivo na vida”.
“Conhecimento nunca é demais”, diz Etevaldo Teófilo Aprígio
Você estava confiante de que ia passar?
Eu estava confiante, mas como eu sei que não é fácil, não gerei muita expectativa para não me decepcionar. Quando soube do resultado, fiquei muito feliz, porque a gente pensa em ter uma situação financeira e uma profissão melhor.
Qual foi a maior dificuldade que você enfrentou?
O mais difícil é conseguir tempo para estudar, porque eu entro no trabalho às 6h e saio às 17h. Quando chegava em casa, tinha que adiantar a comida do dia seguinte, ajudar o filho nas atividades da escola e alguns dias ainda tinha compromisso na igreja e me dedicava à construção de uma casa que estou fazendo para nós.
Então como você fez?
Eu aproveitava os finais de semana para estudar mais e também me dedicava à noite após chegar do trabalho. Lia livros que conseguia emprestado e assistia a videoaulas na internet. O tempo foi passando e eu comecei a levar mais a sério e deu certo.
Por que escolheu história?
Como eu trabalho em uma escola, me relaciono muito com professores e gosto da área de educação. O meu objetivo é dar aula, mas também gosto da ideia de ser um pesquisador. Sempre tive curiosidade em conhecer as histórias do mundo e as das pessoas, a cultura delas e os acontecimentos. Isso sempre mexeu muito comigo.
Pretende se especializar?
O conhecimento nunca é demais. Pretendo me aprofundar, sim, pois será bom não só para mim, mas para os meus alunos.
Acredita que você é um exemplo para o seu filho?
Sim! Desejo que a história dele seja diferente. Espero que ele não precise enfrentar tantos obstáculos como eu a mãe dele estamos enfrentando para nos formar.
