“Funcionamos e voamos sem alvará mesmo, e o preço disso costuma ser alto. Talvez a enorme proliferação de farmácias pelas esquinas da vida ajude a explicar a catatonia desses dias”
Há exatos 10 anos o Espírito Santo virou alvo das organizações de Defesa dos Direitos Humanos por deixar prisioneiros amontoados em celas metálicas e em condições insalubres, altas temperaturas e nenhuma atividade laboral. Repercutiu até no Conselho das Nações Unidas, em Genebra, em 2009.
Até o STJ bater o martelo e mandar desativar o presídio, instalado no município da Serra, e que foi classificado como “Impróprio, odioso, cruel”. Antes, os próprios prisioneiros criaram senha de “saudação” aos novatos: “Bem vindos ao micro-ondas”. Nada mais premonitório, basta observar agora a tragédia no Centro de Treinamento do Flamengo.
Então, se deixar os presos “enlatados em contêineres” provocava indignação, imagine fazer isso com jovens atletas, promissores, cheios de sonhos e que carregam o anseio de tantas famílias por um futuro melhor.
E se num clube da dimensão e visibilidade como o Flamengo é assim, imagine alojamentos de outros centros de treinamento de clubes menores? Muitos não passam de muquifos, e não resistiriam a uma simples inspeção da vigilância sanitária e de bombeiros.
Por tabela, anos atrás testemunhei um parente bem jovem que foi jogar no Vasco da Gama, e morou na concentração do clube vários anos. Quando enfim galgava as escadas para virar titular, a certa altura cansou daquilo tudo, desistiu de jogar profissionalmente, casou e foi viver a vida como ela é. Justificou-se: “Não aguentava mais o ambiente nem sempre higiênico de concentração, a rotina dos treinos, viagens e jogos, só homem na minha frente, na maior parte do tempo”.
E não escondeu que ali, como em quase todo ambiente homossocial, havia assédios. “Às vezes, imaginando ser esse um meio de chegar ao topo, alguns se submetiam às regras daquele jogo camuflado”, arrematou.
Agora, observando a interminável série de tragédias recentes com barragens, ciclovias, casas e pontes que desabam, pessoas expostas em contêineres e casas noturnas sem saída de emergência, o jornalista Joaquim Ferreira dos Santos aponta: “Somos o País sem alvará para funcionar”.
E olha que ele nem havia tido tempo de documentar a posterior queda do helicóptero, também sem alvará, conduzindo o jornalista Ricardo Boechat, acidente que nos privou de um profissional brilhante, pessoa generosa e bem humorada, referência para uma categoria que atravessa fase turbulenta. A viúva Veruska Seibel – jornalista capixaba que, com estilo, escreveu coluna social em A Tribuna – resumiu bonito: “Era quem mais praticava o amor ao próximo”.
Assim, entre perdas e perdas, parece não haver solução à vista, só continuidade. Andamos longe de aprender com os erros, veja nossos 519 anos de civilização e barbárie, faça um cálculo. Não é difícil concluir qual lado avança mais. Ah, sim, vale ainda registrar a opinião de um prefeito capixaba, alguns anos atrás, quando indaguei o que poderíamos esperar da Defesa Civil, isso num período com previsão de tempestades, alagamentos etc.
Ele me sugeriu que orasse bastante. Depois, em tom desesperançado, concluiu: “Com raras exceções, Defesa Civil virou sinônimo de cabide de emprego”. Ali entendi o porquê da sugestão das orações, do entregar para Deus.
Não sabemos fiscalizar nada com rigor, pois não há quem fiscalize o fiscal, nem vigia que vigie o vigilante, e por aí vai. Funcionamos e voamos sem alvará mesmo, e o preço disso costuma ser alto. Talvez a enorme proliferação de farmácias pelas esquinas da vida ajude a explicar a catatonia desses dias.