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Lições de vida de uma lenda da natação paralímpica

“O esporte é vida!”, resume Clodoaldo Silva. E a vida não foi fácil para ele, que nasceu com deficiência nos membros inferiores em virtude de uma ...

Última atualização

 (Foto: Thiago Coutinho/AT)

“O esporte é vida!”, resume Clodoaldo Silva. E a vida não foi fácil para ele, que nasceu com deficiência nos membros inferiores em virtude de uma paralisia cerebral, por falta de oxigenação no parto. Mesmo assim, com muito carisma, vontade e força nas braçadas, o potiguar superou os obstáculos para conquistar nada menos do 14 medalhas paralímpicas e poder compartilhar a sua história.

Aos 40 anos, o agora ex-nadador está no Estado para dar aulas a atletas do Álvares Cabral, além de uma palestra motivacional em uma faculdade particular de Vitória. Desde que se aposentou, depois dos Jogos Paralímpicos do Rio/2016, essa tem sido a rotina de Clodoaldo, nascido em Natal (RN). E o “Tubarão”, como é conhecido, tem mesmo muitos ensinamentos e histórias para passar.

Das 14 medalhas conquistadas em cinco edições dos Jogos Paralímpicos, seis são de ouro, seis de prata e duas de bronze. Clodoaldo também conquistou 19 medalhas em Jogos Parapan-Americanos — 13 de ouro e seis de prata — e nove em Mundiais — seis de ouro, duas de prata e uma de bronze. A lenda do esporte paralímpico brasileiro ainda foi responsável por acender o fogo da pira paralímpica na cerimônia de abertura dos Jogos do Rio/2016.

“Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava que pudesse acontecer o mínimo do que aconteceu na minha vida. Foi um turbilhão de sentimentos e de gratidão. Naquele momento, o mundo todo estava olhando o Clodoaldo Silva”, lembra o ex-nadador, que conversou com o Tribuna Online à beira da piscina do Álvares Cabral, em Vitória.

Tribuna Online — O que o esporte significa para você?
Clodoaldo Silva — O esporte, para mim, é vida! E não simplesmente sobreviver, porque se hoje eu tenho lugar de destaque na sociedade, no Brasil e no mundo foi graças à natação, graças ao esporte. Eu nem imaginava nadar. Na escola eu era goleiro e jogava vôlei. Através do esporte, consegui ter qualidade de vida, consegui me integrar e me incluir mais facilmente com pessoas sem deficiência.

Eu faria esporte mesmo se não fosse para alto rendimento, porque se hoje eu sou uma pessoal com a autoestima lá em cima, com confiança também, é graças ao esporte. Então, sempre fiz esporte, sofri preconceito, discriminação, mas a maioria das pessoas me abraçavam de uma forma bem legal.

 (Foto: Henrique Montovanelli)Você era bom como goleiro ou no vôlei? Ou seu negócio sempre foi mesmo a piscina?
Cara, bom não, porque se não eu não ia para a piscina. Mas era uma forma para eu me integrar e a paixão do brasileiro é o futebol. E o meu sonho era ser goleiro da seleção brasileira.

Na minha época de escola (na Escola Estadual Senador Dinarte Mariz, no bairro Mãe Luiza, em Natal), eu era goleiro do time. Teve um interclasses e a gente saiu na sexta colocação, todo mundo ganhou uma medalha de honra ao mérito e aquela foi a minha primeira medalha! Muitos acham que a minha primeira medalha foi na natação, mas na realidade foi no ano de 1994, no futebol, e a gente saiu na sexta colocação porque só tinha seis times jogando (risos)!

Na maioria das vezes eu tomava “frango” e a galera da minha equipe começava a me xingar. Mas eu ficava feliz porque, se eles me xingavam, é porque eles sabiam que eu poderia pegar aquela bola e que não me viam como “coitadinho”.

O que pensa quando vê seu imenso quadro de medalhas?
Eu lembro de cada uma e passa um filme na minha cabeça. De todas as medalhas, eu lembro de uma especialmente, no último dia de Atenas/2004, a última prova, do revezamento (4x50m medley). Até então, os três atletas que estavam comigo não tinham conquistado medalhas e, naquele revezamento, eles não eram atletas, eram irmãos.

A gente se conhecia tão bem que eu nunca vi o Luis Silva, que nadava borboleta, bater na borda para eu sair. Eu já o conhecia de uma forma que, com o movimento do ombro e da braçada, eu já sabia que ele chegava e a gente nunca queimou (risos). Só que, antes de 2004, a gente sempre perdia na batida para a Espanha no revezamento, e eu sempre fechava, mas naquele dia foi especial.

Acharam que eu não ia dar o meu máximo porque já tinha cinco medalhas de ouro, mas foi o contrário. Eu tinha acabado de sair do 50 metros livres, onde bati o recorde mundial, mas no revezamento a gente ainda conseguiu ganhar a medalha de ouro. Aquela foi a maior medalha e a maior emoção.

Na infância, você demorou a aceitar a sua condição?
Foi uma coisa natural. Nunca passou pela minha cabeça esse sentimento de “coitado”. Era muito difícil as pessoas me sacanearem porque eu mesmo me sacaneava, eu mesmo me sacaneio. Sou um cara muito decidido. E eu tinha isso em casa, não tinha um tratamento especial porque eu sou uma pessoa com deficiência.

Os Jogos do Rio/2016 ajudaram a nossa sociedade a evoluir no sentido de aceitação e acessibilidade?
O legado é mais social. De aceitação, sim, mas de acessibilidade ainda deixa muito a desejar. Por exemplo no Rio, onde moro. A acessibilidade fica apenas no complexo esportivo. Apenas cinco ou seis estações de trem são adaptadas, por exemplo. O legado, então, foi muito mais social. Hoje uma pessoa ou um atleta com deficiência anda na rua e as pessoas não param para fazer chacota, param e falam “eu te vi, você inspira meus filhos”, até mesmo crianças falam “quando eu crescer quero ser igual a você”.

Mas para minha tristeza, o legado foi apenas social, algo totalmente diferente do que antes falaram que seria, com complexos esportivos sendo usados.

O que você sentiu no momento em que acendeu a chama paralímpica?
A intenção da cerimônia de abertura da pira paralímpica era mostrar a acessibilidade, para que a pessoa com deficiência pudesse chegar ao mesmo local que o de uma pessoa que não tem deficiência. Eu tinha que subir em uma escada gigantesca e, de repente, surgiram rampas para que eu pudesse subir e acender a pira.

Até hoje a ficha não caiu, um cara que nasceu lá em Natal, que viveu a vida toda dele em periferia, fez várias cirurgias para poder ter uma qualidade de vida… Nem nos meus melhores sonhos eu imaginava que pudesse acontecer o mínimo do que aconteceu na minha vida. Foi um turbilhão de sentimentos e de gratidão. Naquele momento o mundo todo estava olhando o Clodoaldo Silva.

É mais difícil para um atleta paralímpico conseguir patrocínio?
Vejo amigos comentando que está muito difícil. Enfrentei muita dificuldade. Para ter patrocínio, eu tive que ir para o maior evento paralímpico do mundo e ganhar seis medalhas de ouro! Quando eu comecei, na minha primeira convocação para a seleção brasileira, fiquei feliz, mas tinha que ter dinheiro para me manter lá. Estudava e trabalhava em uma farmácia como auxiliar de escritório e, quando estava se aproximando da viagem, tinha que sair pela cidade para buscar patrocínios.

Tinha dias que eu não ia treinar para bater nas empresas de porta em porta. Nas poucas que me recebiam, alguns empresários falavam que iam me ajudar, mas eu não me sentia bem com aquilo, eu não queria uma “ajuda”, parecia uma esmola. Mas ainda assim eu aceitava, ficava feliz.

Falava que ia usar a marca dele, mas muitos falavam: “Não, não, vou te ajudar de coração, mas não usa a minha marca não”. Eu sentia que o cara queria me ajudar, mas não queria associar a marca dele com uma pessoa com deficiência. Mas isso em nenhum momento me desmotivou. Quando eu tomava um “não”, me dava mais motivação para conseguir um “sim”.

Como é passar seus conhecimentos, como está fazendo aqui no Álvares Cabral? (Foto: Thiago Coutinho/AT)
Ter essa oportunidade de passar a minha experiência, não só através de palavras, mas de atitudes, é gratificante.

Acho legal porque a pessoa fica mais motivada. Depois de Clodoaldo Silva, em 2004, surgiram outros atletas que também são ídolos e que falaram que começaram a competir depois de me ver.

Aqui no Álvares tem a Patrícia Santos, que é uma “cavala” para treinar e, por isso, é tão vencedora e está fazendo história como atleta capixaba. Tive essa oportunidade de participar do mesmo revezamento que ela e ganhar a minha última medalha paralímpica com ela (bronze no revezamento 4x50m livre, em Pequim/2008).

Você pensa em estar de alguma forma nos Jogos Paralímpicos de Tóquio/2020?
Então, eu vou estar de alguma forma, mas não sei como ainda. A única certeza é que não vou mais como atleta (risos). Mas já recebi convites para conduzir a tocha no Japão e estou conversando para ser comentarista.

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