Acostumado a apitar grandes jogos do futebol brasileiro, Wallace Valente precisou superar mais um grande desafio. O ex-árbitro capixaba teve câncer na amígdala, mas fez jus ao sobrenome, venceu a doença nesta semana e por isso tem mais um motivo para comemorar nesta sexta-feira (5) o aniversário de 53 anos.
Depois de quatro meses de um difícil tratamento, com 35 sessões de radioterapia e três de quimioterapia, Wallace está curado. A última quimioterapia aconteceu justamente no Dia da Mentira, segunda-feira, 1º de abril, mas a notícia da cura foi a melhor verdade que o ex-árbitro recebeu. Nesse dia, teve alta hospitalar e agora já está em casa.
“Você tem que ir entendendo o que a vida está te mostrando. Coincidir com a semana do meu aniversário… Estou entendendo que é uma nova vida, que nasci de novo”, avaliou.
Wallace notou dois pequenos “caroços” no pescoço enquanto fazia a barba, em setembro de 2018, e uma fadiga anormal, até que a doença foi diagnosticada quando os tumores estavam com quatro centímetros. O capixaba foi atleta de fisiculturismo, antes de ser árbitro, e depois que aposentou o apito, em 2010, continuou mantendo uma rotina de atividades físicas e alimentação saudável.
A Tribuna – Você sempre teve hábitos saudáveis. Imaginava que isso pudesse acontecer com você?
Wallace Valente – Não esperava. Mas você não pode colocar na conta de ninguém. É um problema seu e você é que tem que enfrentar, e buscar uma motivação. E a minha motivação foi correr a São Silvestre. Eu vou correr a São Silvestre (tradicional corrida de rua que acontece no último dia do ano, em São Paulo). Coloquei isso na cabeça e isso me ajudou.
O que o médico falou?
“Olha, a notícia não é boa, mas você vai ter que enfrentar”. Fico emocionado de lembrar. Ele sabia que o tratamento era difícil porque, sendo na amígdala, tem muito efeito colateral, machuca muito, ficam feridas na garganta, na boca e na língua. Ele também falou que o fato de eu ter uma base física muito boa ia me ajudar muito e de fato ajudou. Passei muita dificuldade, mas suportei. Estava com 90 quilos e emagreci 15.
O que pensou naquele momento?
Não pensava em mim, mas em como ia falar para a minha família. O que fez cair a ficha foi quando divulguei no Facebook e recebi mais de 700 mensagens. Esse apoio foi fundamental.
Como sua família reagiu?
Tenho uma família grande, com seis irmãos, três filhos e meus pais, e todo mundo se uniu. Foi criado um grupo de WhatsApp e passamos a conversar mais. Minha mulher (Dominique) foi demais, abriu mão das coisas dela para ficar comigo. Tinha dia que ela me dava comida na boca, em um mês que foi mais difícil.
Quais foram as principais dificuldades no tratamento?
Foi enfrentar os efeitos da quimioterapia, que são pesadíssimos. É uma luta pela vida.
Vai comemorar como seu aniversário?
Em casa, com amigos e família, bem discreto mesmo, até porque tem que ir devagar (risos).
Sente saudades de apitar?
Saudades não porque conduzi grandes jogos no Brasil e aqui e acho que chegou a hora certa de terminar, lá em 2010. Cumpri meu papel. Mas a arbitragem abriu muitas portas para mim. Além de ter seguido o que o meu pai fez a vida inteira (Carlos Alberto Valente, ex-árbitro do quadro da CBF e aspirante à FIFA), dar esse orgulho para ele, pude aproveitar bastante também. Na estatística, os árbitros capixabas que mais atuaram em competições nacionais foram eu, em primeiro, e meu pai, em segundo.
Qual foi o jogo mais marcante que você apitou?
Fui à Áustria, com a Seleção Brasileira, em uma competição sub-20 amistosa em Viena. Apitei Áustria e Alemanha, em uma partida com muita rivalidade histórica e vitória dos alemães, por 1 a 0. Outro jogo muito marcante foi a rodada final do Brasileiro de 2003, entre Cruzeiro e Fluminense, no Mineirão (vitória do time mineiro por 5 a 2), que o Cruzeiro tinha um timaço e estava colocando a faixa de campeão.
Teve um jogo que você expulsou o Felipe, do Flamengo, na última rodada do Brasileirão 2004, contra o Guarani…
Foi. O Flamengo não podia empatar esse jogo senão caía. Foi no Maracanã e uma pressão grande. O Flamengo ganhou o jogo por 1 a 0, com gol de Júnior Baiano. Como o Flamengo estava ganhando, o Felipe estava fazendo muita ‘cera’, e ele demorou para cobrar o escanteio. Como ele já tinha amarelo, foi expulso, mas ninguém reclamou comigo. Ele sempre foi indisciplinado.
Assistiu aos jogos durante o tratamento? O que tem achado da arbitragem moderna, com utilização do VAR (árbitro de vídeo)?
Foi o que eu mais fiz (risos). O VAR é um instrumento necessário, ele não marca nada, corrige possíveis falhas. Acho que exageraram um pouco e estão tirando a autonomia do árbitro. Ele está ficando com fone, microfone, câmera, e tudo o que acontece em campo tem uma pessoa que fala com ele e ele começa a ficar muito inseguro e pergunta tudo. Na Copa do Mundo não tinha isso. Ainda precisa ser ajustado. O VAR não pode ser protagonista, o protagonista é o árbitro. Mas é uma tecnologia fundamental. Quem dera se no meu tempo tivesse o VAR.
“Você dorme saudável e de repente acorda doente”
Durante o tratamento para vencer o câncer na amígdala, Wallace Valente refletiu muito sobre a vida. Entre as sessões de radioterapia e quimioterapia, o ex-árbitro sentia mais falta das coisas mais simples.
“Não temos controle de nada. Você dorme saudável e de repente acorda doente. A gente precisa prevenir o máximo, ter uma vida sobretudo tranquila, saudável nos aspectos físico e emocional. Durante o tratamento, sentia falta das coisas mais simples, como andar no calçadão, comer um pão com manteiga com café e sair para bater papo”, lembra.
Segundo o médico, o estresse pode ter sido a causa do câncer no ex-árbitro, que sempre teve uma rotina saudável, com atividades físicas e alimentação adequada, sem bebidas e cigarro. Além de apitar jogos importantes do futebol brasileiro, entre 1998 e 2010, Wallace também foi secretário municipal de Esportes em Vitória.
“É o que falam e a gente não dá muita bola. A gente precisa descansar às vezes, dar um tempo. Precisa valorizar as coisas mais simples, viver de forma simples e cuidar da saúde, da família e da sua aproximação com Deus”, sugere

