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Quem cuida do cuidador?

Vemos, na prática clínica atual, um aumento sustentado na incidência de doenças crônicas incapacitantes que, majoritariamente, são agravadas pelos ...

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Vemos, na prática clínica atual, um aumento sustentado na incidência de doenças crônicas incapacitantes que, majoritariamente, são agravadas pelos processos disfuncionais envolvidos no envelhecimento natural. Por conseguinte, há uma tendência lógica universal no avanço da necessidade de assistência permanente por parte de terceiros.

Sabe-se que o cuidar é uma das mais nobres atitudes e reside na rotina gratificante de ser responsável pela manutenção da vida de outrem em seus mínimos aspectos. No entanto, é um grande desafio e a exigência do cargo pode levar, em últimas instâncias, a um estado de exaustão física e mental que vem sendo chamado de “síndrome do cuidador”.

Trata-se da constelação de sentimentos e sintomas apresentada por aquele indivíduo e/ou familiar que entrega alguns anos – ou décadas – de sua vida ao cuidado permanente e exigente de seu ente querido tomado por uma doença incapacitante. Uma das maiores queixas apresentadas pelos cuidadores é a percepção de desequíbrio no relacionamento pessoal com o indivíduo doente, com pinceladas de sensação de luto crônico na medida em que aprofunda-se nos entraves da doença e de culpa por, simplesmente, sentir-se cansado.

Os cuidadores, muitas vezes, descrevem-se como membros esquecidos do grupo familiar, manifestando-se apenas como extensões orgânicas daquele que é cuidado, para quem não se telefona com o intuito de perguntar como se sente e a quem não se oferece um período de substituição, para que abuse de alguns dias de folga.

A esta experiência soma-se, ainda, os aspectos financeiros na medida em que impacta negativamente na capacidade laborativa real; de saúde, tendo em vista a constante necessidade de privação do sono, a sobrecarga física e a predisposição à transtornos psiquiátricos; e social, decorrente do afastamento compulsório de pessoas e situações prazerosas.

Por todos esses motivos, se você é um cuidador, esteja ciente da existência deste fenômeno e busque maneiras de minimizar o seu impacto na sua rotina. Algumas atitudes que podem ajudá-lo neste processo são: compreender, de maneira mais aprofundada, os aspectos biológicos da doença em questão, a fim de que as oscilações na demanda do cuidado sejam mais confortáveis para você; ajustar-se a uma rotina saudável de sono, alimentação e atividade física; manter-se ativo socialmente; interpretar os próprios sentimentos e definir, de maneira clara, os seus limites emocionais, dividindo, sempre que possível, a responsabilidade com outros membros da família; e programar folgas regulares.

Finalmente, você pode e deve assumir que precisa de ajuda em algum momento. Lembre-se, sempre, de que você não está sozinho. Em uma simples busca na internet, você pode encontrar grupos de apoio (virtuais ou na sua cidade) constituídos por outros cuidadores de indivíduos com a mesma doença que acomete o seu ente querido.

A troca de experiências com outros cuidadores tende a ser uma ferramenta poderosa neste processo, aliada, imperiosamente, à minuciosa avaliação e orientação por parte de um profissional médico no que tange aos seus sintomas e a necessidade de tratamento específico.

Alyne Mendonça Marques Ton é médica, mestre em Neurologia e doutoranda em Ciências Farmacêuticas

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