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Polícia

Aluna ameaça colegas com bisturi e fica quatro dias detida

No dia seguinte ao massacre em uma escola de São Paulo, que terminou com a morte de 10 pessoas, uma aluna da rede estadual da Serra, de 17 anos, ...

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Sede do Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo, em Vitória (Foto: Leone Iglesias/AT)

No dia seguinte ao massacre em uma escola de São Paulo, que terminou com a morte de 10 pessoas, uma aluna da rede estadual da Serra, de 17 anos, ameaçou cortar os colegas com um bisturi “assim como os meninos de Suzano”, se referindo à cidade onde ocorreram as mortes.

As ameaças foram feitas na última quinta-feira e, como consequência, ela ficou quatro dias detida. Após participar da audiência de apresentação ontem, no Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo (Ciase), em Mário Cypreste, Vitória, ela foi liberada.

Segundo o despacho do delegado Bruno Vieira de Freitas, as ameaças ocorreram em sala de aula, enquanto a adolescente conversava com colegas sobre outra aluna, que teria falado mal dela.

O delegado relata que nesse momento a adolescente disse que tinha um bisturi, e que cortaria a outra colega, assim como os meninos de Suzano. Ao ser questionada por colegas, a estudante ainda teria respondido que cortaria ela e quem ficasse em seu caminho.

O delegado ainda reforçou que “fosse outra data, não sendo o dia seguinte à tragédia de Suzano, provavelmente a decisão (pela apreensão) seria diferente.”

E completou: “Mas diante da comoção nacional e da repercussão do ato da (adolescente) na escola, perante os alunos, faz-se necessária uma medida de cuidado, para que o Poder Público tenha um papel ativo no sentido de evitar a encenação do ato dos jovens de Suzano, traduzindo em mais violência.”

O advogado da adolescente, Maycon Vicente da Silva, revelou como foram esses quatro dias. “Ela ficou com medo quando chamaram a polícia. Na delegacia, ficou com o pé preso em uma grade. Depois, foi levada para o Ciase, onde permaneceu só nesse período.”

No final de semana, sua defesa ajuizou um habeas corpus, em caráter liminar, no Tribunal de Justiça do Estado, na tentativa de garantir sua liberdade, mas foi negado. Ontem, ela foi liberada.

O advogado disse ainda que sua cliente não tem o perfil para promover um massacre e que optou por não representar contra a colega. “Ela quer virar essa página e continuar na mesma escola e ser um exemplo para que isso não continue acontecendo.”

“Ela chorou muito e pediu perdão”

Maycon: pedido de desculpa (Foto: Thiago Coutinho/AT)Já com sua cliente liberada, o advogado Maycon Vicente da Silva conversou com a reportagem e disse que a adolescente chorou muito e pediu perdão pelo que fez.

A Tribuna – O que aconteceu para motivar essas ameaças?
Maycon –
Houve um desentendimento escolar e foi feita uma ameaça. Por causa disso, a polícia foi chamada e a minha cliente foi apreendida.

E qual foi o motivo?
A outra menina, que não é da mesma sala, postou algumas frases nas redes sociais que atingia a minha cliente. Era uma desavença desde o início deste ano. Não tinha nada a ver com namoro. É mais uma questão de afinidade. A ameaça (na escola) não foi direta. Ela comentou com outras pessoas que não gostava da situação e, infelizmente, citou o caso de Suzano (São Paulo) da boca para fora.

Mas ela levou um bisturi para a escola?
Levou, mas não havia qualquer relação com a ameaça. Ela estava andando com o bisturi porque havia sido assaltada dias antes no ônibus e levava como forma de defesa.

Ela tinha perfil para promover um massacre? É agressiva?
Não. Jamais foi apreendida, nunca teve problema na escola. Pelo contrário! Ela tem boas notas e iria iniciar um estágio na sexta, mas não pôde porque estava internada. Ela reconhece que não deveria ter feito o que fez. Tecnicamente, eu vejo que ela só ficou apreendida por causa da tragédia em Suzano. Se fosse antes, ela não ficaria internada por causa de uma ameaça. Mas tudo isso aconteceu como uma forma pedagógica em virtude do que aconteceu lá (São Paulo). Ela falou algo que me comoveu muito: agradeceu ao juiz por ter permitido que ela ficasse esse tempo internada.

O que ela fez nesses dias?
Ela leu três livros, dois deles de Augusto Cury, que foram oferecidos pelos agentes. E, neste tempo, conseguiu pensar em tudo o que disse. Ela falou que a professora e os colegas mereciam ter ouvido o que ela disse. Então, foi uma forma pedagógica que o juiz aplicou e, nesse caso específico, deu resultado. Ela chorou muito e pediu perdão. Ela se comprometeu a pedir desculpa à pedagoga, à professora e aos colegas.

Não há como aceitar o fato como brincadeira, diz juiz

Relembrando o massacre dentro da escola em Suzano, São Paulo, o juiz adjunto do Centro Integrado de Atendimento Socioeducativo (Ciase), Carlos Madeira Abad, disse em sua decisão, na última sexta-feira, que mesmo que a adolescente tenha dito ao delegado que se tratava de uma “brincadeira”, não havia como aceitar esse fato como uma “brincadeira juvenil.”

Ele afirmou, ainda na decisão, que após receber a representação do Ministério Público relatando os fatos, não havia como deixar em liberdade a adolescente sem que antes ela tivesse consciência e sentisse o peso de seus atos.

Após a audiência na tarde de ontem, em que foi sentenciada à pena de advertência e liberada, o juiz falou sobre o caso.

Ele revelou que a apreensão seria uma decisão dele da mesma forma em qualquer outro caso que houvesse uma ameaça dentro de escola e a citação de que iria ser feito o mesmo que na tragédia em Suzano. “A escola é o lugar mais importante da cidade, assim como o professor é a função mais importante. Eles têm de ser respeitados em seu último grau”, enfatizou.

Segundo o juiz, apesar de ela ter ficado durante todo o fim de semana apreendida, esse tempo não teve como objetivo penalizá-la. “Nesse momento de comoção, entendi que isso teria que ser prontamente resolvido. A única forma foi mantê-la apreendida para interrogá-la hoje, o mais rápido que pude.”

E completou: “A medida socioeducativa tem de ser pronta, pois a educação é fundada na consequência imediata de um ato ruim. Por exemplo, uma criança não vai ser advertida pelos pais um mês depois que fez algo errado. No caso da adolescente, foi advertida logo após ser ouvida, e com a forma mais branda prevista no Estatuto da Criança e do Adolescente.”

O juiz ressaltou que, durante a audiência ontem, ela se mostrou arrependida, e disse que refletiu sobre seus atos. “Ela disse que leu livros, me agradeceu por ter mantido ela apreendida. Disse que irá pedir desculpas na escola.”

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