“Colocar o Espírito Santo no extremo Sul do País, ainda que numa novela, é ir longe demais. Até por que aqui não tem esse negócio de bah nem tri legal. É iá, é pocar”
Atriz e passista também conhecida pelos atributos físicos, Juliana Paes será protagonista de “A dona do pedaço”, próxima novela das nove, da Rede Globo. Ela fará par romântico com Marcos Palmeira, na cidade fictícia de “Rio Vermelho”, localizada no “Espírito Santo”, isso em meio a intrigas e brigas de famílias por posse de terras.
Logo imaginamos que, finalmente, o nosso Estado vai aparecer na telinha em horário nobre, nossas paisagens, nossa gente, nossa comida conquistando o País e tal. Porém, antes de a empolgação tomar conta é necessário um corte seco neste roteiro: a tal cidade cenográfica fica no Rio Grande do Sul. Ou seja, o Espírito Santo que vai aparecer na próxima novela da Globo é um estado fake.
Não é de hoje que a poderosa emissora apronta com os capixabas. E isso vai além da previsão do tempo da região Sudeste, onde âncoras costumam simplesmente eclipsar a meteorologia prevista para o Espírito Santo. Houve época em que humoristas de Rio e São Paulo debochavam que o Espírito Santo era aquele estado que havia no mapa somente para aumentar a distância do Rio de Janeiro e São Paulo da Bahia. Talvez isso explique a predileção dos astros globais não somente pelas praias da Bahia. Em Trancoso, você esbarra com eles. E em matéria de ilha, também preferem outra bem mais distante que Vitória: Fernando de Noronha. É lá, dizem as línguas afiadas, onde costuma rolar altas festas do balaio e babado vip.
Há anos concorremos turisticamente com a Bahia, estado mais midiático – tem elevado índice de violência, porém isso quase não transpira graças ao poderoso lobby turístico – e somos sufocados por um noticiário que insiste ressaltar e apontar aqui mazelas comuns em todo território nacional, como feminicídio e alta criminalidade envolvendo jovens negros. Isso é apresentado por meio de estatísticas nem sempre reais, quase nunca leais e que acabam deixando o Espírito Santo mal na fita.
E olha que além das belezas naturais, da culinária –“moqueca é capixaba, o resto é peixada”, reverbera o incansável Cacau Monjardim –, e de um povo que tem sua graça, sua história e talento, o nosso Estado também é prato cheio para alimentar esse mundo de frivolidades televisivas. Quer exemplo recente: pensou que aquele escândalo de sexo, traição e coação envolvendo um dublê de âncora de TV e deputado federal foi algo excepcional, o chamado ponto fora da curva? Pois um conhecido ex-deputado federal também andou protagonizando, nos últimos dias, cenas do mesmo
calibre. Isso tanto dá alto Ibope eleitoral aos protagonistas quanta elevada dor de cabeça doméstica. Diante desses dois episódios, virou historinha menor o desenlace do ex-casal gospel Magno Malta e Lauriete.
Portanto, a turma da Globo não precisa ir longe para tecer tramas, dispor de boas locações naturais e contar com personagens interessantes bem versados no esquete de sucesso garantido em qualquer produção: sexo, traição, chantagem, brigas e intrigas. Volta e meia, algum personagem de novela surge ”vindo do Espírito Santo”.
Mas não passa de vaga menção dúbia, tipo assim filme de Hollywood citando o Brasil como destino de algum pilantra em fuga.
A propósito, desde que o Brasil descobriu outro Cabral – o ex- governador enfim assumidamente propineiro – dispensamos esse tipo de menção. Agora, colocar o “Espírito Santo” no extremo Sul do País, ainda que numa novela, é ir longe demais. Até por que aqui não tem esse negócio de bah nem tri legal. Nosso expressionismo é iá, é pocar. Aqui é outro papo, outro lugar no mapa.