“Agora uma amostra do Clube da Esquina poderá ser conferida na turnê comemorativa do antológico álbum de 1972, com apresentações em Vitória (3 de agosto) e outras capitais”
Nem o vice-presidente, general Hamilton Mourão, parece suportar mais as baixarias do “guru” de Bolsonaro, Olavo de Carvalho. Em vez de argumentar, Olavão – um “filósofo” de academicismo raso – “só desqualifica quem o questiona”, endossou o general. Bem, cá pra nós, quem tem um guru como Olavão não precisa de inimigos. Mas como estamos todos no mesmo barco, podemos deduzir que temos pela frente uma longa, nebulosa e complicada travessia.
Outro dia, numa prosaica travessia por um shopping de Vitória, o que chamava mesmo atenção era a falta de movimento, o comércio às moscas. Ok, final de mês, fim de verão, o cartão de crédito estourado, a gente entende, mas nunca antes vi tamanha pasmaceira, o vazio diante das vitrines refletindo as incertezas econômicas e políticas. Uma reforma da Previdência encalacrada e um presidente batendo cabeça com o Congresso também não ajudam nessa travessia.
Melhor mesmo é lembrar uma travessia diferente, edificante, como a realizada pelo cantor e compositor Milton Nascimento. Homenageado dias atrás em programa na TV aberta, “Altas Horas”, Rede Globo, Milton Nascimento, o “Bituca”, resumiu ali sua vasta obra, que começou a ser conhecida quando soltou a voz nas estradas cantando “Travessia”, no Festival Internacional da Canção de 1967. Tempo dos grandes festivais, manifestos, censura, ditadura, contracultura, tudo junto e misturado.
“Travessia”, a canção seminal, extraída de outro ícone mineiro, João Guimarães Rosa, é a última palavra do caudaloso, labiríntico e épico romance “Grande Sertão: Veredas”, que narra a luta do bem contra o mal pelos grotões das gerais. Milton Nascimento e Fernando Brant, parceiro na canção, pegaram daquela obra exatamente a última deixa do mestre das palavras, musicaram e transformaram em ponto de partida para uma grande travessia.
Com a carreira engrenando, inclusive nos Estados Unidos, Bituca poderia fazer como a maioria das estrelas emergentes: se preocupar com shows, discos, ganhar dinheiro, criar fama e deitar na cama. Contudo ele empreendeu uma travessia inversa: voltou para Minas Gerais, onde fora criado, e para sua turma de amigos e parceiros musicais, justamente a turma que ele reuniria no antológico álbum duplo “Clube da Esquina”, lançado em 1972. Ao invés do costumeiro a “estrela sobe só”, um astro agregador de satélites sonoros.
Esse álbum também foi o primeiro que comprei e dividi com um amigo: tempos de dureza estudantil. E a gente se revezava ouvindo com prazer cada vez maior aqueles dois vinis. Álbum hoje conceituado, que misturou MPB, pop, barroco, Beatles e música latina, contém uma sonoridade jovial falando “desses homens mórbidos, quando olhava da janela lateral,do quarto de dormir”. A foto da capa com dois garotos, um branco, outro preto, à margem de uma estrada, tirada ao acaso, virou ícone. Agora uma amostra do Clube da Esquina poderá ser conferida na turnê comemorativa do álbum, com apresentações em Vitória (3 de agosto), Rio de Janeiro (18 de maio), e passagens por outras capitais.
Tímido, adotado e morando num grotão mineiro – a cidadezinha de Três Pontas – no início muitos não levavam fé naquele projeto de artista, de ir onde o povo está. Até que um dia, no meio dessa travessia, a cantora Elis Regina carimbou um atestado definitivo: “Se Deus tiver voz, deve ser igual à do Milton Nascimento”. Ultimamente, ele tem feito todo um discurso em defesa dos povos das florestas, e detalha suas incursões por aldeias amazônicas. Também chama atenção o seu desprendimento e incentivo dado aos novos talentos. Ele mantém museus-escolas que propagam sua obra e oferecem formação para jovens, em Barbacena, Três Pontas e Belo Horizonte.
Ah, se aquele cantor capixaba, chamado de “Rei”, resolvesse fazer algo parecido em sua terra natal… Por sua vez, conterrâneos e súditos do “Rei”, no lugar da busca pela originalidade e inclusão, trilham estranha travessia. A Prefeitura de Cachoeiro está promovendo concurso para escolher o melhor… imitador de Roberto Carlos. Já pelas redes sociais dos cachoeirenses circula uma montagem do programa de televisão, “O Brasil visto de cima”, mostrando atrativos locais e uma narração feita por um imitador do locutor original, o ator Caio Blat. Enfim, é somente mais do mesmo cover, primo ancestral do fake, que está no ar.