Convivendo com um sofrimento que parece não ter fim e vendo um empresário, de 48 anos, perder parte do seu patrimônio, que inclui dois carros, sua família luta por uma internação à força. Viciado há cerca de 15 anos, o empresário tinha um salão de beleza em um bairro nobre de Vila Velha, onde mora. O vício começou com maconha, passou para a cocaína e depois para o crack.
Ele entregou os dois carros para trocar e pagar dívidas de pedras de crack, segundo contou o advogado da família, Flávio Fabiano. “Ele entregou um Peugeot, que valia cerca de R$ 20 mil, há cinco anos, por pouco mais de R$ 500 em pedras. Já a picape Chevrolet, que também estava avaliada em R$ 20 mil, ele entregou no ano passado, para pagar uma dívida de drogas que começou com R$ 1.100 e foi subindo a R$ 5 mil”, relatou o advogado.
O irmão do empresário, um gestor na área de saúde, de 50 anos, acrescentou que, além dos veículos, ele vendeu um sítio na zona rural de Vila Velha e, aos poucos, foi perdendo dinheiro e três celulares – entre eles, um iPhone.
Sem conseguir resgatar o empresário do submundo das drogas, a família recorreu à Justiça para que ele seja internado e o tratamento, custeado pelo Estado.
“A lei exige o laudo de médico psiquiatra na ação, mas no caso do empresário a família não tinha. Informei que ele estava nas ruas, correndo risco de morte e que não seria possível ir a bocas de fumo, lixões, locais insalubres e perigosos atrás do viciado, a fim de se fazer um exame médico”, informou o advogado.
Na última quarta-feira (15), uma decisão da Justiça determinou que uma equipe de saúde de Vila Velha localize e faça avaliação médica do empresário.
O secretário municipal de Saúde, Jarbas Ribeiro de Assis, informou que, por enquanto, não é possível comentar nada, pois aguarda a determinação da Justiça.
Ele assegurou que, assim que a secretaria receber a demanda judicial, o serviço Consultório na Rua fará diligências no município para localizar o paciente. Havendo êxito na busca, a área de Saúde Mental (Caps AD) providenciará o laudo determinado pelo Judiciário.
“É a nossa única esperança”, diz irmão de empresário
Um dos irmãos do empresário, um gestor na área de saúde, conversou com a reportagem e falou sobre o drama da família para retirá-lo do submundo das drogas.
Quando perceberam que o seu irmão estava indo para o mundo das drogas?
Quando você se dá conta, o envolvimento já é grande. Ele morou no exterior um tempo e acredito que ele já voltou com esse vício.
Seu irmão mora nas ruas?
Ele dá aqueles perdidos e some por alguns dias, entre 15 a 20 dias, depois volta para casa todo transformado, sujo, e fica dormindo, mas retorna para as ruas. Ele já ficou alguns meses sem usar drogas, sempre com o mesmo discurso de que largou o vício, que está bem, com foco nas questões espirituais, mas acaba retornando.
Ele já ficou internado?
Não, justamente por conta da dificuldade, processo burocrático, da ausência de vagas.
Há quanto tempo tentam interná-lo?
Cerca de quatro anos. Às vezes, não tem vagas; às vezes, consegue, mas não tem laudo.
A família já tentou resgatá-lo nas cracolândias?
Minha mãe, que tem mais de 70 anos, e meus irmãos já foram várias vezes quando recebem notícias de amigos de onde ele está ou quando alguém da família vê. Eu não tenho essa força.
Além dos carros, ele perdeu muita coisa?
Sim. Do sítio que ele vendeu, não dá para saber exatamente o valor, mas foi mais de R$ 10 mil. Também perdeu celulares.
Para a família, essa internação e a única esperança?
É a nossa única esperança. A gente não conhece outra forma.
Teria palavras para descrever o que é ter um viciado na família?
É muito sofrimento. Uma sensação de impotência.
