De olho em mentiras, em comentários que podem comprometer a imagem corporativa e para acompanhar o rendimento profissional durante o expediente, empresas contratam especialistas e até consultorias que monitoram seus empregados.

Periodicamente, um relatório é realizado com interações e postagens e entregue a uma comissão interna da empresa, que avalia os conteúdos. Caso haja opiniões conflitantes com a atuação da empresa ou consideradas prejudiciais, o empregado é convocado para conversar sobre o assunto.
A empresa em questão tem um código de conduta previamente informado a todos os colaboradores para que não haja a possibilidade de o empregado não saber a respeito do que pode ou não ser dito na internet. Ainda assim faz, primeiramente, uma advertência verbal e conversa com o profissional.
Caso não haja solução, o colaborador recebe advertência por escrito, podendo até ser demitido.
A psicóloga, especialista em Pessoas e Carreiras Gisélia Freitas ressaltou que, geralmente, esse monitoramento das redes sociais é feito internamente por profissionais de Comunicação, Marketing ou RH.
“Mas algumas empresas maiores contratam terceirizadas para fazer a gestão das redes sociais. Nesse caso, o monitoramento do quadro entra nessa avaliação. Não adianta investir no marketing nas redes sociais se os funcionários falam mal da empresa”, ressaltou.
O advogado trabalhista Aloir Zamprogno disse que essa prática vem sendo adotada e, no seu entendimento, não existe nenhuma vedação legal nesse sentido.
“A discussão é mais para o campo da moralidade, da ética. Agora, seria de bom tom o empresário deixar claro que a empresa acompanha os seus empregados nas redes sociais. É muito comum um empregado entrar em discussões no campo pessoal com clientes.”
Profissional de marketing digital
“Me policio mil vezes pela carreira”
Quando ainda estava na universidade, uma jovem, que hoje tem 23 anos e pediu para o nome ser preservado, não tinha limites nas redes sociais. Contudo, quando decidiu seguir carreira de Marketing Digital, mudou sua postura. “Me policio mil vezes agora, por causa da profissão”.
A Tribuna —Como era o seu comportamento?
Profissional de Marketing Digital — No Twitter, eu sempre fui de falar muito. Fazia comentários de toda natureza, como sentimentos de felicidade e de tristeza, sobre questões políticas, a situação do País, protestos…
Seus comentários causavam muita polêmica?
Não, porque eu estava em uma bolha de pessoas que pensavam quase como eu. Mas também já parei de seguir pessoas na rede social por não concordar com certas opiniões. No Facebook, não era tanto assim, mas, de qualquer forma, eu me policio mil vezes agora, por causa da profissão, da minha carreira.
Por que mudou?
Esse start veio no último ano da universidade, em 2017, porque o País já estava muito polarizado. Sei que eu ia acabar criando embate, inimizades e não queria me desgastar com isso.
Postagens que você fez no passado te preocupam?
Sim. Eu tinha comentários machistas, que hoje eu olho para o passado e não me reconheço na pessoa que era.
Evito fazer postagens no Instagram quando saio com amigos e vamos para um bar ou festa. Sempre fico pensando que as pessoas estão vendo. Então, é melhor me preservar, não postar nada com bebidas, alguns tipos de música.
Eu sempre me pergunto: “O que a pessoa vai achar de mim?” Eu sou uma profissional e não posso me comportar como adolescente.
Parentes também têm postagens monitoradas
Além de estarem atentos ao que os funcionários estão publicando nas redes sociais, até mesmo as postagens de parentes têm sido alvo de análises por parte das empresas.
A psicóloga e especialista em Pessoas e Carreiras Gisélia Freitas destacou que isso tem sido feito de forma velada, mas atrai cada vez mais a atenção de empresas. Como exemplo, citou o caso relatado por uma profissional de Recursos Humanos em um curso recente.
“Ela contou que a mulher de um funcionário falou muito mal da empresa em uma publicação de sua rede social. O grande problema foi que o marido, que era funcionário, curtiu a mensagem.”

“Nesse caso, o funcionário nem chegou a ser chamado para conversar. Três semanas depois, disseram que estavam com outros projetos e fizeram a substituição.”
Gisélia frisou que, assim como as empresas estão atentas a quem fala mal e mente nas redes sociais, elas valorizam os funcionários engajados com o que a empresa posta.
“Quem curte a página da empresa, compartilha publicações e faz comentários positivos é visto com bons olhos. O funcionário mostra com isso que tem orgulho de onde trabalha. Esse comportamento tem um potencial muito grande.”
A diretora técnica da Rhopen, Jaciara Pinheiro, explicou que a triagem no processo de seleção já é natural, observando se o perfil do candidato se assemelha à cultura da empresa. Agora, no caso de quem foi contratado, ela disse que tem sido comum as empresas criarem regulamentos.
“É importante que o colaborador tenha muita clareza de que, a partir do momento em que aceitou trabalhar naquela empresa, ele está, sim, submetido àquelas regras. Não é uma opção. Aquilo passa a ser passível de demissão.”
Jaciara finalizou dizendo que a imagem precisa ser preservada. “Quando você está atrelado a um CNPJ, não tem como desacoplar a imagem.”

