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Luiz Trevisan

Café com jabuticabas

“Ele sugere asfaltar gargalos e instalar um teleférico, no lado capixaba do Caparaó. “Isso seria um bom indutor”, frisa José Carlos Carvalho. Aponta ...

Pé de Jabuticaba

Última atualização

“Ele sugere asfaltar gargalos e instalar um teleférico, no lado capixaba do Caparaó. “Isso seria um bom indutor”, frisa José Carlos Carvalho. Aponta que o Pico da Bandeira, o terceiro maior do País, é o mais central e acessível de todos. “Quem é que vai fazer trilha ou se aventurar lá nos canfundós do Pico da Neblina?”, compara”

Tempo de colheitas, do café às jabuticabas. E algumas ações, no campo e na cidade, nem sempre salvam a lavoura. Como as escolas ensinando a plantar mudinhas, controlar o lixo e tal, mas sem fazer o dever de casa básico que reprova e ceifa vidas: dependências escolares também com focos de mosquitos da dengue. Ou seja, é a velha lição da prevenção ainda não assimilada nem por, pela ordem, autoridades, diretores, professores, familiares e alunos.

Pé de Jabuticaba (Foto: Divulgação)

Governo cobra ações mitigadores da Samarco, porém ao mesmo tempo pede pelo retorno da mineradora, como se a empresa estivesse fazendo por merecer – e não é isso que pensam pescadores, ribeirinhos e lideranças comprometidas com o meio ambiente. Foi esse cenário do após a tragédia em Mariana que abriu um café e prosa com o ex-ministro do Meio Ambiente José Carlos Carvalho, capixaba de Jerônimo Monteiro que comandou a pasta no governo Fernando Henrique Cardoso. Uma vez ministro, sempre ministro, reza a tradição do cargo. Pelo menos era assim num tempo em que os ministros eram em número bem menor e duravam bem mais nos cargos.

A conversa segue amena, o sol de manhã de outono, quase inverno, filtrando pelas janelas do Golden Tulip, ali na Enseada do Suá, e avança justamente pelo que está à mesa: o café, seu papel na colonização e no desmatamento de nossas terras, até a qualidade no consumo. Qual o melhor? Da Colômbia, Etiópia, Indonésia, Índia, Guatemala? E o que dizer da Itália, que não tem tradição no cultivo, até por questão climática, mas que com suas máquinas cafeteiras alcançou a excelência do produto na xícara. Como resistir a um “espresso” ou “cappuccino” bem tirado?

Faço parêntese na conversa, para lembrar que até a Jamaica tem um café top produzido na região conhecida como Montanhas Azuis, 2.256 m de altitude, o “Blue Mountain”. Cito que quem me chamou atenção para esse café jamaicano, bastante valorizado no mercado internacional, foi o exportador Gilberto Micheline. Diante do meu espanto, ele concluiu com uma tirada oportuna: “Então, meu caro, pensou que na Jamaica só dá reggae e maconha?”

Da Jamaica a conversa agora gira para o Caparaó, na divisa entre Espírito Santo e Minas Gerais, que o ex-ministro considera uma região de grande potencial turístico, hídrico e agrícola, mas ainda pouco explorada, principalmente pelos capixabas. “Os mineiros já montaram uma boa infraestrutura do lado de lá, nós é que estamos perdendo tempo”, pontua. Ele sugere asfaltar gargalos e instalar um teleférico, no lado capixaba do Caparaó. “Isso seria um bom indutor”, frisa José Carlos Carvalho.

Aponta que o Pico da Bandeira, o terceiro maior do País, é o mais central e acessível de todos.

“Quem é que vai fazer trilha ou se aventurar lá nos canfundós do Pico da Neblina?”, compara. Nessa altura da conversa, o café começa a ser compartilhado por outro conhecido ambientalista capixaba Luiz Fernando Schetttino, que passou para um abraço e dedos de prosa. Ele não esconde que está em busca de apoio oficial para um projeto interessante: utilizar presidiários de boa conduta na preparação e plantio de mudas de árvores nas nascentes e áreas degradadas.

Lamenta que até agora prega no deserto, mas promete não desistir. Dou força e observo que são as “jabuticabas” da nossa política, remetendo a uma frase do então ministro da Economia, Mário Henrique Simonsen. Numa ocasião, reagindo às propostas de mudanças econômicas feitas pela oposição, Simonsen cunhou uma pérola: “Se não é jabuticaba e só tem no Brasil, não é coisa boa, é besteira”. Igualmente virou metáfora para coisas que só acontecem no Brasil, assim como laranja se tornou personagem no pomar da falcatrua.

Em tempo: embora originária das matas brasileiras, a jabuticaba hoje já pode ser encontrada na Argentina, Uruguai, Bolívia, Paraguai e México. Enquanto a fruta rompe fronteiras deliciando paladares, a nossa jabuticaba política segue sendo coisa só nossa. E azeda com enorme facilidade.

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