“Surgiram caravanas de refugiados, os imigrantes indesejados, os terroristas fundamentalistas e líderes populistas extremados. A intolerância cresceu e o mundo agora se parece com aquele relógio da canção que roda para trás”
O mundo anda num ritmo que por vezes se parece com uma música de Edu Lobo e Chico Buarque, “A moça do sonho”, que fala das escadas que fogem dos pés e dos relógios que rodam para trás. A cada dia temos a sensação de que o mundo anda em retrocesso, passos de caranguejo. Basta ver o extremismo sobre questões de gênero ou exaltações em defesa da volta da ditadura, da divisão em vez da aliança e inclusão. Um mundo concêntrico, antiglobalizante e separatista está no ar. Até onde isso vai dar… Já deu em Trump nos EUA, Putin na Rússia e vai por aí rodando.
A turma da Catalunha, em briga secular, vez por outra incendeia a Espanha. O Reino Unido segue dividido entre ficar ou sair do mercado comum europeu. Os “separatistas” do Sul brasileiro já se assanharam num plebiscito, enquanto o bloco Sudeste dá asas ao que parecia sepultado pela marcha evolutiva: emancipar a região do País. Já imaginaram São Paulo e Minas, mais Rio e Espírito Santo juntos, num só bloco e sem as pendências econômicas e sociais do Norte e Nordeste brasileiro? Pois é, trata-se de retórica divisionista, que parecia ultrapassada, mas que retorna com força.
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Uma boa saída diante de tanta sanha de exclusão, do vamos nos juntar aqui e deixar que os outros se explodam, talvez tenha surgido em uma daquelas conversas no Café Murad´s, em Cachoeiro, a chamada boca maldita da cidade. Por pura ironia, cogitou-se ali um plebiscito para transformar a “capital secreta” numa república independente. O grupo divertiu-se imaginando que o governador perderia o sono e a fleuma, mas que Theodorico Ferraço teria um território para chamar de seu.
Agora falando sério, era só outra irreverência para inflar o bairrismo local. Afinal, é a terra do ”Rei”, do sabiá da crônica etc.
Em nosso cotidiano, a divisão também se revela em episódios como o registrado no mercado Saara, Rio de Janeiro: aboletada num carro de som e com o filho no colo, mulher irradia pedindo que o marido volte para ela. Parte do público se comove, aplaude e incentiva a reconciliação do casal, o amor é lindo e tal. Porém, outra metade, cruel e separatista – ou seria “realista”? –, berra em coro: “Corno, corno!”.
Mais cedo ou tarde, devem retornar os separatistas municipais, espécie que igual aos zumbis povoam o calendário das temporadas eleitorais nas disputas para prefeito e vereador. Pregam emancipação de território como caminho para o desenvolvimento quando, na maioria das vezes, isso favorece montagem de superestruturas (Prefeituras, Câmaras, Ministério Público, Conselhos, etc.) geradoras de despesas, mas que trazem poder aos políticos paroquiais e extenso cabide de empregos.
A grande vantagem que o mundo unido e globalizado traria seria justamente eliminar as estruturas dispendiosas, na medida em que são superpostas. Num primeiro momento, maravilha. Contudo, surgiram as caravanas de refugiados, os imigrantes indesejados, os terroristas fundamentalistas e os líderes populistas extremados. A intolerância cresceu e o mundo agora se parece com aquele relógio da canção que roda para trás.