A queimada não é somente na Amazônia. Na Vila Rubim, em Vitória, uma loja de produtos altamente inflamáveis ardeu por dias, após ter sido multada 57 vezes por não possuir alvará. A segurança também arde: moradora do Barro Vermelho se assusta com a bala que estilhaçou sua janela, no 12º andar. E a pequena Ághata, dentro de uma Kombi, no Complexo do Alemão, Rio, morreu vítima de bala não identificada. Em Brasília, o padre rezou missa e foi para casa, ao lado, onde acabou morto asfixiado por assaltantes. Ninguém nem nada estão a salvo, em lugar nenhum. Nem gente, bicho, floresta, geleira, rio, mar. Na outra ponta da queimada, a Lava a Jato parece esvair gota a gota. Na Suíça, fizeram funeral para uma geleira que desapareceu da montanha.
Nem mesmo a memória coletiva escapa. Nem Beatles, João Gilberto, nem Yesterday e Garota de Ipanema. E os Beatles, de quarteto fabuloso – que os moderninhos chamariam de “icônico” – do mundo pop, viraram “semianalfabetos musicais”, ardendo na fogueira daquele “guru” do disruptivo Bolsonaro. O que era novo, belo e forte, se desmancha. Até o “rei” Roberto Carlos já passa meio batido com seus discos, num tempo em que discos também queimam substituídos pelo streaming.
Quando morreu o papa da Bossa Nova, João Gilberto, no rastro do noticiário sobre o cantor – a rivalidade entre filhos exposta, a intimidade do ídolo retraído devassada –, um amigo me perguntou se aquela morte poderia representar o renascimento da música que ele ajudou a criar juntamente com Vinícius de Morais e Tom Jobim. Não tive dúvida na resposta: “Gostaria muito que fosse diferente, mas agora a Bossa Nova babau, só renasce se for no Japão”, disse. A música da delicadeza e acordes envolventes já não se encaixa no ruído dos dias ao redor.
Daí apenas por divertimento, imaginei que, na linha do criativo filme “Yesterday” – onde o planeta sofre um apagão mental e apenas um músico se recorda das canções dos Beatles – poderia ocorrer algo semelhante com o movimento que celebrizou a Garota de Ipanema? A propósito, “Garota de Ipanema” seria naturalmente o nome do filme imaginado. Por coincidência, Yesterday e Garota de Ipanema são duas canções que em meados da década de 1960 disputaram o topo das paradas de sucesso, nos Estados Unidos e em vários outros países.
Então, imagine que a memória coletiva, por algum fenômeno, também apagasse a Bossa Nova da história e restasse apenas um único brasileiro em condições de recordar as canções criadas por aquela turma que se reunia inicialmente no apartamento da Nara Leão. E que depois surpreendeu os americanos com aquele inusitado show no Carnegie Hall, até ecoar mundo afora pela voz de Frank Sinatra e outros célebres intérpretes. Naturalmente, esse felizardo sobrevivente da memória musical teria que possuir capacidade para apresentar Garota de Ipanema e outras pérolas com algum talento. A sofisticação harmônica, as dissonâncias da Bossa Nova nunca foram para amadores. É mais fácil tocar Beatles.
Mas, enfim, as canções da Bossa Nova, assim como dos Beatles, teriam vez no mundo de hoje? Alguém ainda se lembra de belezas como O Barquinho, Chega de Saudade, Desafinado, Samba de uma Nota Só, Samba de Verão, Minha Namorada? O mundo seria pior sem a Bossa Nova? O Brasil seria melhor ou pior sem a Bossa Nova? Ipanema teria o mesmo charme do cantinho e o violão, do doce balanço a caminho do mar?
Certamente tudo seria mais triste e cinza sem a luminosidade daquelas canções, acredito. Porém, isso seria indiferente para muita gente. E põe gente nisso. Gente que, a exemplo daquele personagem da escritora inglesa Virginia Wolf, enxerga a “arte apenas como uma moldura da vida”. Dispensável, portanto, pois há toda uma plateia sem nenhuma preocupação estética e harmônica.
A propósito, o cantor e compositor Milton Nascimento, ouro, prata e bronze das catedrais e montanhas das Geraes, acaba de classificar a atual música brasileira de “m…” Porcaria mesmo. Já o filme brasileiro Bacurau, digo eu, é surpreendentemente bom, jóia rara. Tem raízes e razões difíceis de queimar.