Um futuro interrompido por causa das drogas. Como milhares de histórias que acontecem com frequência no País, mais uma se repete: a de um jovem de 19 anos, esportista, morador de Vila Velha, que, por causa do vício em maconha, LSD e vodca, vai precisar ser internado à força.
O psicanalista Francisco Veloso, doutor em dependência química, contou que recomendou à família a internação do jovem, já que ele está tendo alucinações e até agrediu a mãe. “Ele chegou a ser preso após agredir um policial e também já atacou a mãe e tentou enforcá-la. Considero que a internação é uma das últimas alternativas para tentar a recuperação dele. Foi um processo difícil, até mesmo para fazer a mãe entender que isso é necessário”.
De acordo com o psicanalista, o ex-atleta se envolveu com as drogas quando estava em treinamento em Curitiba (PR). “Ele fazia parte da equipe brasileira de natação dos 100 metros rasos e revezamento. Há um ano, ele passou a usar maconha, LSD, vodca, e a vida dele começou a mudar naquele momento. Até a Bolsa Atleta, do governo federal, ele perdeu, sendo que tinha chances de classificação para as Olimpíadas de Tóquio, no Japão”, contou.
Francisco Veloso relatou que o jovem perdeu a noção da realidade. “Há dias em que ele não quer tomar banho ou escovar os dentes. A mãe está com medo do filho. Teve vezes em que ele roubou a própria mãe para comprar drogas”.
Para o psiquiatra Fernando Furieri, as internações compulsórias são válidas. Ele ressalta, porém, casos de pacientes que já passaram por diversos tratamentos e que não têm melhora.
“Um paciente meu contou que, nos primeiros seis meses de internação, ele sonhava com a droga todos os dias. Ao fim do segundo ano não sonhava mais com a droga. Chegou a se converter e até pregava, porém, um dia colocaram cocaína na frente dele e, com a pressão do momento, ele urinou nas roupas e novamente usou a droga”.
Já o psiquiatra Valdir Campos afirma que é preferível quando o paciente decide se internar por vontade própria. “Porém, caso a situação fique insustentável para a família, não vemos outra alternativa a não ser fazer a interferência e internar o paciente”, frisou.
Saiba Mais
Lei
- O presidente Jair Bolsonaro sancionou a lei que permite que usuários de drogas sejam internados de forma compulsória, ou seja, à força. Na prática, familiares ou responsáveis não precisarão recorrer à Justiça para solicitar essa internação.
- A nova lei, com diretrizes para o Sistema Nacional de Políticas Públicas sobre Drogas (Sisnad), foi publicada na edição de ontem do Diário Oficial da União e já está em vigor.
Centros de tratamento
- Com a nova lei, usuários de drogas poderão ser levados para centros de tratamento contra a própria vontade, com anuência de um médico.
- Ela pode acontecer a pedido de familiar, do responsável legal ou de servidor público da área de saúde ou do Sisnad.
Tipos de internação
- Voluntária: feita com consentimento do dependente.
- Involuntária: quando a internação acontece sem o consentimento do dependente, a pedido de familiar ou responsável, ou, na falta deste, a pedido de servidor público da área de saúde ou da assistência social.
Prazo
- A internação involuntária será realizada apenas após aprovação médica e irá perdurar apenas pelo tempo necessário à desintoxicação, no prazo máximo de 90 dias.
- O ministério público e a Defensoria Pública deverão ser informados da internação em até 72 horas.
Acolhimento
- O acolhimento será sempre por adesão voluntária em comunidades terapêuticas. Elas devem oferecer ambiente residencial propício à promoção do desenvolvimento pessoal e não poderão isolar fisicamente a pessoa. O ingresso nelas dependerá sempre de avaliação médica.
- Usuários que possuam comprometimentos de saúde ou psicológicos de natureza grave não poderão ficar nessas comunidades.
Estado
- A Secretaria de Estado da Saúde (Sesa) informou que os critérios de internação voluntárias e involuntárias já estabelecidos no Espírito Santo desde 2014, não mudam com a nova lei. Qualquer internação involuntária necessita de laudo médico e de esgotamento dos recursos extra-hospitalares.
Fonte: Sesa e pesquisa AT.
