por: Maria Benedita Barbosa Reis
“A OMS estimou que 800 mil pessoas cometem suicídio por ano”
Todo e qualquer suicídio é uma tragédia humana, quer do ponto de vista das pessoas mais próximas daquela que se foi, quer do pessoal de saúde que se frustra por não ter detectado os sinais possivelmente emitidos pela vítima, bem como da sociedade, diante da impotência e da fragilidade do ser humano e o seu impacto é devastador.
Recentemente, a Organização Mundial da Saúde (OMS) estimou que 800 mil pessoas cometem suicídio por ano. Além disso, para cada morte cuja causa é identificada como suicídio, muitas tentativas acontecem, mobilizando pessoas e elevando os gastos com saúde pública, já que, a cada 40 segundos, uma pessoa morre por suicídio em algum lugar do mundo, enquanto várias outras tentam engrossar essa estatística.
Lamentavelmente, no Brasil, apesar de o suicídio ser uma das grandes causas de morte, principalmente na faixa etária dos 15 aos 35 anos, ele não tem sido priorizado como um problema de saúde pública, não estando, ainda, na pauta da atenção básica em saúde, nem no currículo e na formação dos futuros médicos e demais profissionais da saúde.
O tabu e os estigmas que cercam o suicídio e as doenças mentais ainda dificultam a procura de ajuda, deixando as pessoas frequentemente desamparadas. Falhamos nas nossas percepções do não dito ou sussurrado, ou seria o receio de perguntar a respeito? Considerando que grande parte das pessoas que tentaram o suicídio fará uma nova tentativa, não estaria mais do que na hora de atentarmos para os sinais de alerta, a fim de identificarmos as pessoas mais vulneráveis?
Muitas vezes, ao buscarem ajuda, ou mesmo ao tentarem o ato suicida, essas pessoas costumam encontrar profissionais e serviços despreparados, incapazes de uma intervenção eficaz e imediata, deixando falhas e cicatrizes em uma condição que poderia ser prevenida.
Sim, o suicídio e a tentativa de suicídio são passíveis de serem prevenidos, e a OMS se propõe a reduzir a taxa de suicídios em 10%, até 2020. É sabido que o suicídio é predominante em homens, enquanto as tentativas de suicídio, em si, são mais frequentes entre as mulheres.
Os fatores precipitantes de comportamentos suicidas costumam estar associados a situações que implicam perdas, simbólicas ou reais. Tentativas prévias, presença de transtornos mentais, uso nocivo de álcool e de outras substâncias, perdas financeiras, dor crônica e intensa e uma história familiar prévia de suicídio não podem ser negligenciados. A desesperança sabidamente aumenta o risco de suicídio e precisa ser investigada e aquilatada.
A dependência química, principalmente o uso abusivo de álcool, cada vez mais prevalente, é uma das principais preocupações de saúde pública, responsável pelo consumo de grandes quantidades de dinheiro e de uma imensa carga de investimento social e em saúde, e sua ligação com o suicídio é assunto bem documentada.
O desemprego e a instabilidade profissional que atingem tantas famílias neste momento difícil porque passa o país são fatores desencadeantes do problema. Ao mesmo tempo, a satisfação com a vida, a presença de crianças na família, a capacidade positiva de resolução de problemas e de adaptação, a resiliência emocional e a capacidade de resolver problemas são fundamentais para combater o suicídio, que deixa marcas tão profundas.
Maria Benedita Barbosa Reis é psicanalista e psiquiatra
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