
Merhaba significa oi, olá, e foi uma das poucas palavras que aprendi.
Infelizmente as agências de viagem não têm experiência com cadeirante viajando pra lá, logo, não sabem informar quase nada sobre os acessos. É um país forte no turismo, mas muito atrasado em relação aos direitos das pessoas com deficiência. A acessibilidade – como em qualquer país de terceiro mundo – não é prioridade. Então, vocês já imaginaram a minha luta em realizar tal feito, não é?
Um alô – Hoje, começamos a perceber que as questões da acessibilidade no turismo tem se constituído em uma preocupação ética e socialmente relevante. Claro, sem falar na dimensão econômica igualmente importante, porém, nem sempre valorizada pelos gestores do turismo. E essa falta de interesse por parte dos agentes prestadores de serviços turísticos pode ser justificada, em parte, pela falta de informação e de conhecimento sobre o potencial econômico do turismo designado de “acessível”.
No Brasil, cerca de 46 milhões de brasileiros possuem algum tipo de deficiência, segundo Censo de 2010, divulgado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Logo, não há dúvidas, do grande potencial dos consumidores com deficiência para o turismo.
Mas lá fui eu! Disposta a encarar e aprender com os imprevistos, entendi que faria a viagem mesmo assim. Desistir é uma palavra que não existe no meu dicionário, logo, precisei de uma boa dose de concentração e coragem para o embarque. Ah, claro, tive um privilégio enorme de viajar com a minha noiva, familiares e amigos.
Confesso que planejar a primeira viagem para a Ásia (ou seria Europa?) foi um dos momentos mais marcantes da minha vida como viajante. Era a realização de um desejo, que à primeira vista não era tão forte devido a essa falta de informação sobre o que eu conseguiria fazer, tanto dos profissionais de turismo de lá quanto daqui. Mas quando começou a se concretizar, foi difícil a princípio gerenciar as expectativas com a realidade dos detalhes práticos para se chegar à Turquia.
Diferente das outras viagens, tive bastante tempo para planejar e resolver tudo e batalhei muito antes de colocar o pé e as rodas no avião. Documentação em ordens e saúde também. Ah, se não estiver com a saúde em dia e preparo físico não vá à Turquia.
É chegada a hora! Enquanto voava e ainda tensa com o mundo desconhecido que me aguardava, pensava constantemente em como seria andar por Istambul, Capadócia e estar com pessoas do mundo inteiro e o mais instigante, não saber nada sobre o acesso aos passeios que havíamos comprado, hotéis das diversas cidades do interior e etc. Vivi esse estado de alerta durante as 13 horas de voo.
Chegamos! A noite quente de verão de Istambul nos deram boas-vindas. Cumprido todo protocolo de chegada e bagagens em mãos, minha cadeira intacta e cuidadosamente entregue, tive o meu primeiro dos muitos “causos” ainda no aeroporto: O guia que nos esperava me diz que o ônibus não era acessível ou adaptado mas, que iria me pegar no colo!
Cansada, mas disposta a me despir do “politicamente correto”, me entreguei.
Foram essas experiências, as situações, as vivências e as pessoas – sempre as pessoas –, que despertaram em mim o instinto da sobrevivência, da aventura, de conhecer novas culturas, formas de estar, pensar ou agir. Viajar para a Turquia não foi tão simples, mas ao mesmo tempo foi muito intenso. Foi enriquecedor. Mais que isso, foi transformador.
Não demorou muito para me apaixonar pelo país. Viajamos de ônibus por muitas cidades do interior. Vou contar para vocês como foi estar em muitas delas e os inúmeros “causos “ que vivi durante os 10 dias que me aventurei de rodas pelas terras do Atatürk! Até a próxima!
Mariana Reis é consultora em acessibilidade e educadora física