por: Luiz Trevisan
“Antes de voltar para casa, soube pelo noticiário que 350 policiais invadiram o Bairro da Penha, numa ruidosa operação caçando traficantes e criminosos”
Há tempos o foguetório nos morros de Vitória deixou de ser manifestação festiva, mas eis que Dona Cândida chegou do interior para visitar parentes, ir ao Convento da Penha, conhecer a Chocolates Garoto, essas coisas de turistas antigos. E se comoveu com o foguetório de manhã, de tarde, noite adentro e madrugada. “Ô povo que gosta de festa, hein”, disse à mesa do café, sendo então logo conduzida à realidade urbana da ilha: “Tia, é a bandidagem abafando os próprios tiros, avisando que chegou droga, arma ou que a polícia está invadindo”, alertou um sobrinho, enquanto digitava ao celular. “Pensei que era festa, futebol”, murmurou Cândida.
Rapidamente nela se desfez imagens que fogos de artifício traziam aos seus sentidos, das quermesses nas igrejas, rodeios e festas juninas, essas coisas de um interior Jeca que agora vai se digitalizando, verticalizando e urbanizando a galope entre puxadinhos e meia-água. Olhou pela janela os morros momentaneamente em paz, lembrou das chuvas de prata dos fogos de artifícios iluminando sua aldeia estrelada. Parecia pintura de Van Gogh, diria, se outra fosse Cândida.
Como esquecer os morteirinhos de jardins, os rojões de vara, as serpentinas e serpentes voadoras se esparramando pelo céu? Conteve uma lágrima furtiva no canto de olho ao perceber que pros lados da Consolação e São Benedito, nomes tão singelos em seu fervor paroquial, agora eclodiam fogos de artifício.
Depois, levada a passear em lugar mais seguro, o shopping, notou que ali era tudo muito limpo, não havia pobres aparentes, tudo bem organizado, diferente do mundo real. E pensou, candidamente, que antes dos shoppings eram as igrejas os pontos de convergência em um tempo onde fogos de artifício representavam encontros, celebração, fé e vida.
Antes de voltar para casa, soube pelo noticiário que 350 policiais invadiram o Bairro da Penha, numa ruidosa operação caçando traficantes e criminosos. Tudo sob intenso foguetório artificial e armas de verdade, junto e misturado.
De volta, na entrada da sua cidadezinha viu um acampamento de noiados e sentiu até saudades dos sem-terra de antigamente que apareciam vez por outra até serem escorraçados pela polícia. Então, a vidinha seguia trivial entre casos e causos, carteado, jogos de botões e prosa com cadeiras na calçada.
Súbito, os assaltos às fazendas e sítios ganharam tal intensidade que já tem muito produtor rural pensando em propor um Caminho do Campo às avessas, nada de asfalto. Junto com a comodidade e progresso, também traz a bandidagem para mais perto. Tipos estranhos quebram a placidez das montanhas e vales aterrorizando pequenas comunidades. O menino da porteira de agora pode ser um flanelinha ou vendedor de muambas.
Antenada após sua temporada na Grande Vitória, Dona Cândida pediu e ganhou de aniversário um celular moderno. Um netinho nerd a ensinou manejar o aparelho. Agora, em vez de tricotar, vive zapeando e frequenta variados grupos onde sua relação de amizade virtual não para de crescer.
Ligadíssima, já sabe que Moro vai ouvir Lula em fevereiro a respeito daquela história mal-contada do sítio em Atibaia, e que a bela modelo Isabeli Fontana tem intensa vida sexual. Acompanha de perto a novela do doping do Guerrero, sabe que o Rio de Janeiro continua lindo, perigoso, quebrado e tal. E replicou, inserindo nota de apoio, sobre o retorno do governador Paulo Hartung da Carolina do Norte anunciando que vai vetar projeto aprovado na Assembleia Legislativa proibindo exposições com “teor pornográfico”.
Em sua última postagem adicionou texto do professor Martinuzzo alertando sobre os tempos obscuros em que vivemos, da censura às artes, dos discursos de ódio que ganham força em meio a extremistas ameaçadores. Anda penalizada com as levas de refugiados a vagar sem eira nem beira, e bem assustada com o ditadorzinho da Coreia e Trump brincando de Guerra nas Estrelas.
Da Lava a Jato, anda meio anestesiada pela overdose de corrupção. Cândida também distingue em dois segundos fake news que pululam nas redes. E já faz bom tempo que não vê mais graça nos fogos de artifício.
Luiz Trevisan é jornalista
