
A luta contra o mosquito Aedes aegypti fez várias vítimas no Estado. Entre elas, 38 mães que foram contaminadas com o zika vírus e agora lutam para que seus filhos, que nasceram com microcefalia, tenham tratamento digno e um melhor desenvolvimento no futuro.
No entanto, a realidade dessas mães não favorece essa busca. Uma pesquisa que está sendo desenvolvida pelo Programa de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Espírito Santo (Ufes) mostrou que as mães do Estado, que têm filhos com a Síndrome Congênita do Zika, que pode causar a microcefalia, estão passando dificuldades e as crianças não estão recebendo tratamento correto.
“Começamos a pesquisa no início de 2016, quando não havia muitas informações do que era a doença. Agora estamos em uma segunda etapa, que é acompanhar as mães dessas crianças e saber como está o acesso ao tratamento. É lamentável a situação!”, destacou a doutoranda da Ufes que realiza a pesquisa, a enfermeira Paula Freitas.
De acordo com ela, a pesquisa mostrou que das 38 crianças que foram diagnosticadas com sequelas por causa da contaminação do vírus da zika durante a gravidez, 17 delas moram na Grande Vitória. “O retrato dessas mães, de acordo com essas 17 que já entrevistamos, é que a maioria vive abaixo da linha da pobreza, em lugares ou condições insalubres, que favorecem a proliferação do mosquito. Além disso, são negras ou pardas, grande parte foi abandonada pelo parceiro e pela família. E, ainda, estão desempregadas porque se dedicam integralmente aos seus filhos”, descreveu.
Esquecidos
Além disso, a pesquisadora revelou que as mãe gastam mais da metade da renda que recebem do governo com os filhos ou com aluguel para ficar mais próximo à Associação de Pais e Amigos dos Excepcionais (Apae), onde as crianças recebem tratamento.
A professora da Ufes e orientadora da pesquisa, Ethel Maciel, contou que a situação de algumas mães é lamentável. “Temos mães com filhos nessa situação de necessidade especial que não têm dinheiro para comprar fralda ou leite. Isso tem sensibilizado muito a equipe. Somos preparados para isso, mas vemos mães dando depoimentos e chorando durante duas horas ao falar da situação. Parece que elas e os bebês foram esquecidos”.

“Disseram que ela seria um vegetal”, diz mãe
O tão esperado momento do parto trouxe uma grande surpresa para a dona de casa Joseleide de Andrade Silva, 39 anos. Há um ano e três meses, quando Isadora, sua filha mais nova, nasceu, a notícia de que o bebê tinha microcefalia surpreendeu e chocou Jose, como gosta de ser chamada.
A Tribuna – Como descobriu que a Isadora tinha microcefalia? Como se sentiu?
Joseleide – Quando tive zika estava com cinco meses de gestação, mas só fiquei sabendo depois. Achei que era só um mal-estar. Por isso, quando minha filha nasceu com microcefalia foi um susto. Ainda mais que a médica disse que ela não iria andar, falar ou enxergar. Ela disse que minha filha seria um vegetal. Mas não acreditei. Hoje, mesmo que devagar, minha filha está evoluindo.
A Tribuna – E você trabalha? Mora com quem? Quem te ajuda com os cuidados dela?
Não trabalho, fazia uns bicos, mas agora ninguém me chama mais. Acho que é por causa da neném. Cuido dela e da minha filha de 5 anos, Isabela, sozinha. Todo dia é uma luta para cuidar da minha filha, passo muita dificuldade. Hoje (ontem), por exemplo, não tenho dinheiro para comprar fraldas, e elas já acabaram. Falta dinheiro para comprar o leite dela, para comprar passagem para levar ela ao médico. Às vezes fico com vergonha, mas tenho que pedir ajuda para comprar as coisas. Já tive três contas de luz para vencer, mas a minha prioridade é sempre o cuidado com minha filha. As outras coisas a gente vai dando um jeito.
Lorrany Martins