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Por Luiz Trevisan Filmes de Sérgio Leone e Clint Eastwood à parte, a sensação mais próxima de entrar numa cidade faroeste que experimentei foi em ...

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Por Luiz Trevisan

Filmes de Sérgio Leone e Clint Eastwood à parte, a sensação mais próxima de entrar numa cidade faroeste que experimentei foi em Curionópolis, interior do Pará, em 1989. Casas de madeiras, barracos cobertos de plásticos, ruas de chão salpicadas de esgotos, tipos mal-encarados e um histórico de alta criminalidade não estimulavam a prolongar a visita por ali. Porém, era passagem obrigatória para se alcançar a Serra dos Carajás, onde a Vale explora minério, o destino final. Curionópolis surgira no rastro da corrida do ouro a Serra Pelada, atraindo garimpeiros, aventureiros, mercenários, desocupados, prostitutas e toda aquela fauna em busca de dinheiro rápido.

Do grupo de jornalistas naquela viagem ao Pará, fazia parte o saudoso repórter policial e cronista Pedro Maia, que entendia de malandragem e mundo cão como ninguém. Ele também se mostrou inquieto diante daquele cenário bang-bang e, como costumava andar armado, tratou de exibir seu revólver na cintura. “Em casa de malandro, vagabundo não pede emprego”, justificou em uma de suas tiradas. Ainda bem que ele não precisou mostrar sua habilidade, pois em pouco tempo embarcamos no veículo da Vale rumo ao alto de Carajás.

Lá, pernoitando numa casa de hóspedes cercada pela floresta, descobrimos que o valente Pedro Maia morria de medo de onça. Naturalmente, ele acabou virando alvo de brincadeiras por causa daquele temor. Pelo sim, pelo não, dormiu com seu trezoitão na cabeceira. Depois, obrigados a encarar uma viagem de avião Bandeirante – apelidado de “cai-cai” – até o Maranhão, numa tarde chuvosa, descobrimos outro pavor do cronista: medo de avião pequeno. Jatões ele até encarava após generosas doses de uísque, mas um “cai-cai” sobrevoando a floresta amazônica debaixo de chuva era demais. Foi uma aventura à parte fazê-lo subir naquela aeronave.

Hoje, o Google revela que Curionópolis evoluiu em sua, digamos, estrutura urbana. Adensou, possui algumas vias pavimentadas, casas de alvenaria e, vista assim de longe, até parece uma prosaica localidade banhada pelos rios Vermelho e Sororó. Contudo, os indicadores sociais dizem o contrário, e a criminalidade ganhou o ingrediente das drogas. Se antes brigavam por ouro, terra e mulheres, agora as quadrilhas de traficantes demarcam territórios num salve-se quem puder. Talvez por isso mesmo, é grande a oferta de chácaras e sítios postos à venda por lá. Para quem gosta de fortes emoções…

E para confirmar que o interior do Pará é um lugar onde “Os fracos não têm vez”, indicadores do Ministério da Saúde revelados recentemente apontam que Altamira é a localidade mais violenta do Brasil, vindo em segundo outra localidade do Pará, Ananideua. No caso de Altamira, a escalada da violência é atribuída à construção da hidrelétrica de Belo Monte, que atraiu muita gente, juntamente com o tráfico. Fósforo e gasolina lado a lado explodindo as taxas de homicídio. Essa violência toda por lá está longe de significar uma concentração das ocorrências. Das 50 localidades mais violentas do mundo, 19 são brasileiras. Atualmente, no Brasil, uma pessoa é morta a cada dez minutos, revelam indicadores entre 2001 e 2015.

Traduzindo um pouco esses números alarmantes, no referido período a população brasileira aumentou 18,6%, enquanto a taxa de homicídios cresceu 23%.  Mais: em 2014, Fortaleza e a Faixa de Gaza tiveram números de mortes semelhantes. No Ceará, 2.271 homicídios, no Oriente Médio, 2.327 mortos entre palestinos e israelenses. Pensou na Guerra do Iraque? Então, vejamos: entre 2003 e 2017, foram 268 mil vidas perdidas. Pois em intervalo de tempo semelhante, os assassinatos no Brasil foram quase três vezes maiores do que o conflito no Iraque. E se serve de algum consolo, entre as 10 capitais mais violentas, segundo a estatística 2001-2015, Vitória está fora.

Os especialistas reclamam da ausência de uma Política Nacional de Segurança Pública. Daí, que as políticas melhor sucedidas são capitaneadas pelos estados, que dependem da boa vontade e liderança de um governador. Associado às estatísticas, o senso comum sinaliza que a alta concentração de renda, a baixa escolaridade, corrupção sistêmica e a anacrônica política de combate às drogas criam um ciclo sinistro difícil de romper. Diferente dos filmes faroestes, no mundo real não existe aquele herói solitário que chega, resolve a parada e depois cavalga pelas pradarias num final feliz.

 

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