por: Luiz Trevisan
“O mundo contemporâneo, que raramente se lixa para a memória histórica, segue ávido, com pressa, em meio a novos negócios”
Não está fácil para ninguém. A Federação das Indústrias do Espírito Santo (Findes) cancelou o Prêmio de Jornalismo 2017. Motivos alegados: corte no orçamento e remodelagem. Seria a quarta edição. Criado em 2014, na gestão do então presidente Marcos Guerra, o prêmio Findes preencheu uma lacuna no incentivo e na memória do jornalismo estadual. Sempre nesta época, nos primeiros dias de dezembro, a Findes reunia concorrentes e convidados, para destacar e premiar trabalhos divulgados nos jornais, rádio, TV e web ao longo do ano.
Agora, há um vazio no calendário de uma categoria que, como tantas outras, tenta superar a crise econômica enfrentando um mercado em fase restrita, repleto de desafios e transformações. Assessoria da Findes revela que o prêmio será reformulado – há uma nova gestão, mudou a presidência – e deverá retornar em 2018 repaginado, mais interativo. Melhor que seja assim. Além de valorizar, o prêmio de jornalismo da Findes se tornou também momento raro de ampla confraternização da categoria.
E entre transformações e confraternizações, nessas postagens que pululam nas redes sociais, há uma apropriada para esta época natalina. Reproduz um seriado que tão bem se encaixa àquela cena comum vivenciada por qualquer um em qualquer restaurante: casal chega com filhos e namoradas, ocupam a mesa, todos sentam lado a lado sem deixar de manipular seus celulares. E seguem interagindo com o mundo virtual e distante, o real próximo posto de lado.
A postagem em questão destaca uma fala de Albert Einstein: “Eu temo o dia em que a tecnologia ultrapasse a nossa interação humana. O mundo terá uma geração de idiotas”. Em seguida são mostradas cenas de pessoas tomando café, indo pra balada, jantando, passeando de carro ou numa barraca de praia: todos manuseando seus aparelhos. A mensagem embutida é clara: andamos cercados de pessoas cada vez mais interativas e introspectivas, juntas e separadas ao mesmo tempo.
Outro efeito na geração criada em plataformas digitais chama a atenção: obesidade crescente. Não há queima de energia das antigas brincadeiras de ruas – cada vez mais perigosas -, roda e tal, associado a hábitos alimentares nada saudáveis: refrigerantes, biscoitinhos recheados, lanches saturados. Como em todo mundo novo, há também nítidas divisórias, entre avanços e atrasos. Até o galo em seu canto madrugador corre risco da concorrência eletrônica. Vem por aí, diz a robótica, o Homem-Avatar, meio humano meio máquina.
E o mundo contemporâneo, que raramente se lixa para a memória histórica, segue ávido, com pressa, em meio a novos negócios, jeitinhos e oportunidades. Embora cercados de máquinas, a criatividade humana traz a diferença. Veja o case de sucesso do bronzeado artificial na laje, feito com fitinhas adesivas para reproduzir marcas de biquíni que somente seriam possíveis após dias de sol e mar. Agora, tudo pode ser obtido em apenas uma manhã na laje. Na narcísica geração selfie, prosperam os negócios envolvendo estética, este sim um mercado em franca expansão. E pensar que laje só servia pra churrasco, cerveja, funk, pagode e, não raramente, baixaria.
Houve um tempo em que vivíamos mais preocupados com coisas distantes, assim como o lixo espacial, o satélite defasado ou velha sonda desgovernada que iria desabar do céu em qualquer lugar, a qualquer hora. Sabemos hoje que há riscos e lixões maiores aqui na Terra – Trump, por exemplo -, e que boa parte desses objetos voadores se desintegra na atmosfera ou cai no mar, até por questão de probabilidade.
Mesmo o temido buraco da camada de ozônio, motivo de tantas matérias alarmistas, atravessa fases de regenerações naturais. Melhor, então, é tirar os olhos das estrelas, esquecer um pouco o celular e prestar atenção ao redor.
Luiz Trevisan é jornalista e compositor
