O encarte da edição em LP duplo do álbum que Marcelo Callado lança nas plataformas digitais na última sexta-feira, 8 de dezembro, é fundamental no projeto gráfico criado por Celina Kuschnir para o disco Musical porém (RockIt! / Embolacha). É que o encarte, cuja imagem sugere colcha de retalhos na qual estão impressas as letras e as fichas técnicas das 20 músicas do álbum, é a mais perfeita tradução visual deste farto disco em que o compositor e instrumentista carioca alinhava e emenda sons, vozes e poéticas com produção orquestrada pelo próprio Callado com Igor Ferreira.
A costura resulta fina, elegante e sincera, ainda que, como toda colcha de retalhos, extraia beleza da harmonização de elementos díspares que, se reunidos em outro contexto, poderiam denotar falta de unidade. Em Musical porém, segundo álbum solo do artista, o amor, a poesia e o afeto parecem ser a linha que amarra músicas que, na gravação, vão do samba ao rock. No LP duplo, a costura faz mais sentido pela divisão das músicas em quatro lados (A, B, C e D), ainda que não haja rigores excessivos nessa disposição.
A poesia concreta que brota entre as vozes e sons aglutinados na música-título Musical porém (Marcelo Callado), alocada como a segunda faixa do lado A, reverbera nas duas últimas músicas do lado D, À toa (Marcello Callado) e Adeusdeusa (Marcelo Callado), temas em que as melodias soam casuais, como meros pretextos para que se arme o engenhoso jogo de palavras do músico poeta.
Projetado como baterista da BandaCê (criada por Caetano Veloso a partir da repercussão do álbum Cê, de 2006) e do quarteto Do Amor, Callado se exercita como instrumentista polivalente no álbum, pilotando guitarras, violões, baixos, percussões, pianos e até baterias. Contudo, trata-se de um álbum solo somente no sentido da criação. A formatação foi coletiva, com os toques de músicos amigos da cena contemporânea da cidade do Rio de Janeiro (RJ), como o excepcional guitarrista Pedro Sá e os baixistas Bruno Di Lullo (parceiro e convidado de O homem nada), Gabriel Bubu e Ricardo Dias Gomes.
Aberto com Nascer, música feita por Callado sobre poema de Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987) publicado no livro póstumo Receita de ano-novo (2015), o álbum alterna delicadeza e pressão, elementos aglutinados na música Super supero (Marcelo Callado e Julia Naidin). No lado A, a linguagem do rock é expressada em Boa noite, Cinderela (Marcelo Callado) somente com a combinação da voz eficaz do cantor com o toque noise das guitarras do próprio Callado. Há na faixa intencional sujeira que ressoa entre os ruídos de Ser e não ser, música composta por Callado a partir de poema de Chacal, cuja voz é ouvida na récita dos versos entre ecos do punk e do titânico Arnaldo Antunes, artista que também conjuga música e poesia (por vezes concreta).
Em clima mais leve e lúdico, o lado B cai no suingue, abrindo com samba, Do tempo do onça, composto e cantado por Callado com o parceiro Rubinho Jacobina entre o remelexo baiano e a manemolência carioca. Formatada entre o samba e o rock, Passe de mágica (Marcelo Callado e Jô Hallack) ilude com o jogo armado pela autora da letra, Jô Hallack, com as palavras-títulos da música-poema.
Após o mix de guitarras e percussões que pauta Brincar é preciso (Marcelo Callado), música feita sob encomenda para Nina Becker para vídeo de lançamento de marca infantil da artista, o álbum recai no suingue de Sentidos (O olfalto faltou!) (Marcelo Callado), faixa em que o arranjo esboça a imagem de cada verso da estrofe final, tentando sintonizar música e letra.
