
Observar que até muito pouco tempo, o país era um mero corredor de exportação entre os produtores da América do Sul e os consumidores da Europa. Hoje, somos o maior consumidor de crack e o segundo maior, de cocaína, do planeta!
Aqui, o criminoso articula-se promiscuamente com o cidadão, o policial, outros bandidos e o Estado, sob a égide das leis arcaicas, igrejas hipócritas, dos políticos fichas sujas, defensores dos direitos humanos, da polícia impotente e justiça vagarosa, num sistema aparelhado ideologicamente. No fim dessa corrente de proteção enferrujada, está a Sociedade que os pariu, recebendo seu bumerangue explosivo de volta.
O exemplo do Rio de Janeiro é emblemático e sua face escura é bem conhecida.
O crime acompanhou 35 anos de governos que contribuíram para a devastação financeira e moral do estado.
O fracasso das políticas habitacionais, para populações de baixa renda e o afrouxamento das regras, para a ocupação irregular de certas áreas — em troca de votos —, empurraram cada vez mais moradores para as favelas sórdidas. E não há nenhum plano para realocar ou controlar essas Comunidades.
São quase 1.000 favelas, onde moram mais de 1,5 milhão de pessoas. As drogas, miséria e morte estão engolindo esses locais, que são controlados por traficantes e milícias.
Acobertados pela corrupção e impunidade, emparedam a polícia e as pessoas de bem, e o resultado é uma guerra civil permanente, cujo saldo macabro foi de 6.731 assassinatos, em 2017.
A grande maioria dessas mortes tem ligação direta com drogas e armas. Então, dizer que uma intervenção federal irá resolver o problema do Rio, ou de qualquer outro estado brasileiro, é apenas uma cortina de fumaça para encobrir o gravíssimo quadro da segurança pública, com seus altíssimos índices de viciados e níveis absurdos de corrupção.
Também vai servir para imobilizar o Congresso Nacional — que não pode aprovar nenhuma lei ou reforma, enquanto uma das unidades federativas estiver sob o comando do interventor federal — e, convenientemente, empurrar nossos tenebrosos problemas para 2019.
Falta coragem e competência para elaborar um plano nacional para a Segurança Pública do Brasil, uma intervenção geral, porque o narcotráfico se transformou numa pandemia que extrapola todas as fronteiras. Ele é formado por uma rede espalhada por todo o País e avança em conjunto com traficantes e corruptos de outros países.
Esses criminosos jamais irão abdicar dos bilhões de dólares que são movimentados nessa gigantesca economia paralela, que é associada ao universo das armas ilegais. O Brasil precisa adotar tolerância zero em relação ao tráfico de drogas.
Urge reformar as polícias, investindo em capital humano, recursos e tecnologia; articular ações educativas e sociais (para evitar a dependência) e de saúde pública (para tratar dependentes); tornar eficiente a defesa das fronteiras; endurecer as relações com os países produtores; radicalizar o combate aos traficantes, criando leis duríssimas que permitam seu encarceramento sumário; prender os corruptos que infestam essa Nação; e fazer da vigília uma ação permanente de todos nós, como forma de conter esses crimes hediondos.
Martha E. Ferreira é economista