
Pode ser mais um factóide de Temer, para enterrar assuntos impopulares, como a reforma da Previdência, mas pode ser que a situação chegou a um extremo tantas vezes anunciado. Esse Rio, a rigor, nunca foi manso. Desde os anos 60 e 70, décadas consideradas nostalgicamente como os ”anos dourados da vida carioca”, quem ia ao Rio de Janeiro, antes de embarcar, era alertado sobre perigos como motoristas insanos e punguistas nas ruas, as falsas damas da noite e os malandros de navalha no bolso a provocar nas esquinas. Ainda hoje, quando vou ao Rio, costuma vir à mente a comparação feita por um suburbano cachoeirense metido a carioca da gema: “O Rio é como uma mulher bela, sedutora, irresistível, mas que pode ser fatal”.
Agora, esse grau de fatalidade vai ganhando novas formas e avança por fronteiras vizinhas. Na medida em que o Exército passa a ocupar a cidade, a bandidagem procura rotas de fuga e vai sobrar pra gente. “Já estão comendo casquinha de siri em Meaípe”, eis uma postagem-resumo, feita dias atrás, ilustrando a chegada dos “refugiados dos morros cariocas”. Coincidência ou não, bandidos com cara de palhaço explodiram caixas eletrônicos do Banco do Brasil em Vila Velha, numa madrugada recente. A cara de palhaço utilizada não deixa de ser um traço de humor negro, que também costuma ser típico de cariocas.
Sobre os Impactos da intervenção no Rio, há duas correntes distintas predominando nas análises. Uma tradicional linha dura, que sugere intensificar a repressão ao tráfico, sanear as polícias, ocupar os territórios, expulsar os bandidos. Seria mais do mesmo remédio que vem sendo aplicado. Um cientista social chegou a comparar: “É botar curativo sobre ferida profunda”. De resto, intervenção militar é sempre uma incógnita, sugere implicações relativas aos direitos humanos e remete a comparações, como o resultado pífio da dispendiosa ocupação feita pelo Exército durante 14 meses na Favela da Maré. É aquela história: Exército não foi treinado para ocupar, mas, sim, confrontar.
Outra corrente aponta a necessidade da ocupação ser acompanhada de ações sociais nas comunidades, juntamente com a desconcentração da renda – o número de brasileiros bilionários vem crescendo juntamente com a enorme exclusão social – e a descriminalização das drogas para acabar com os cartéis e traficantes. Mas, por exemplo, vá falar em descriminalizar drogas. A bancada evangélica já vem babando, infernizando e desqualificando. As elites e seus representantes torcem o nariz. O ex-presidente Fernando Henrique até já tentou provocar esse debate e virou “o velho maconheiro”.
Cada uma das alternativas cogitadas carrega enorme grau de complexidade, algumas mexem em interesses escusos, privilégios e conceitos arraigados. Não existe solução mágica e há mesmo quem considere que a luta contra a violência, cada vez mais enraizada e amplificada, no Rio ou em qualquer lugar, é uma causa perdida que, no entanto, não pode ser tratada assim para não espalhar pânico.
Mal-comparando, é como a síndrome do “trem-fantasma”. Hoje já existe tecnologia para trens circularem por controle remoto, porém os maquinistas permanecem a bordo para não causar terror na população que vive à beira da linha. Agora, estamos na beira da linha do expresso-fantasma que parte direto dos morros, avenidas e periferias cariocas. Não tem maquinista a bordo e a carga costuma ser explosiva.